Amigo(a) leitor(a), como meus demais colegas colunistas do JVN, acompanho e busco tratar de assuntos que tendem a afetar o desempenho dos seus negócios.

Em meio às causas e efeitos provocados pelos “conflitos” recentes (1) Rússia-Ucrânia, (2) Hamas-Israel, com envolvimento da União Europeia e EUA e demais membros da OTAM (Organização do Tratado do Atlântico Norte), e (3) Venezuela-EUA, o que vemos é uma mudança no tabuleiro geopolítico e nada será como antes!

Além dos impactos econômicos, o mundo assiste a uma mudança de paradigma. Os EUA estão capitaneando o processo, priorizando o unilateralismo: os acordos comerciais tendem a valorizar relações bilaterais. Os EUA optaram por levar à mesa de negociações cada parceiro comercial.

Importante destacar que a geopolítica trata das relações de poder e influência entre Estados nacionais e ou regiões geográficas. Nesse contexto, leva em conta fatores econômicos, militares, culturais e estratégicos que tendem a moldar as relações entre as diferentes nações.

A geopolítica busca analisar como a oferta e necessidades de recursos, localização geográfica, fluxos de comércio e financeiros, disputas territoriais e alianças políticas e militares afetam as políticas externas dos diferentes países, regiões e ou blocos econômicos. Também trata da forma como essas interferem em assuntos de segurança nacional e o equilíbrio global de poder permitindo analisar, prever tendências nas relações internacionais e propor defesas de interesses dos diferentes países.

Cada um desses adota suas estratégias com base em seus objetivos. Em economia, dizemos que regimes democráticos escolhem suas prioridades quando os cidadãos elegem seus representantes. A máxima é “cada escolha = um voto”; a maioria elege um projeto de condução dos rumos das políticas econômicas, incluindo as políticas comercial e externa.

Dadas as grandes fontes de “instabilidade” geopolítica, quero destacar os principais conflitos atuais em ao menos duas principais causas:

(1) Conflito Ucrânia-Rússia

(a) Expansão da OTAN ao leste europeu: a Rússia avalia que a aproximação da Ucrânia com a OTAN como uma ameaça direta à sua segurança, temendo a presença de forças militares ocidentais em sua fronteira. È o mesmo que faz os EUA na América Latina, ante as ações de regimes com viés à esquerda.

(b) Preocupações quanto a influência política ucraniana – desde 2014, com a anexação da Crimeia pela Rússia e o apoio a movimentos separatistas ocorridos no leste ucraniano (Donbass), o conflito se intensificou. A busca da Ucrânia por maior integração com a União Europeia supostamente confronta interesses russos em manter a Ucrânia sob sua “esfera” de influência. Esses elementos estão na base do conflito entre esses países.

(2) Conflito Hamas-Israel

(a) Origens do recente conflito Hamas-Israel: Iniciado em out. 2023, motivado pelo desejo do Hamas de responder à ocupação, bloqueio de Gaza, ameaças à Mesquita de Al-Aqsa e expansão de assentamentos. O ataque promovido pelo Hamas deixou cerca de 1.200 mortos em Israel e gerou mais de 250 reféns. A resposta israelense foi uma ofensiva militar, por meio de bombardeios, bloqueio e reocupação parcial de Gaza.

(b) Fundamentos ideológicos da “jihad: Mudar o indivíduo, mudar a família, mudar a sociedade, o estado e levar ao islã global, ante ao fracasso de ideologias globais como nazifascismo e comunismo é agora a única ideologia global. A “jihad” significa literalmente “esforço” ou “luta” em árabe. No islão é um conceito com diferentes significados, incluindo: luta interna (esforço de certos grupos muçulmanos para combater as suas próprias más inclinações e instintos), “luta social” (empenho para construir uma sociedade baseada em valores muçulmanos) e “guerra santa” (luta armada para defender o Islã). O fato é que houve uma radicalização desse movimento, não apenas no oriente médio, mas em vários países europeus como Portugal, França, Inglaterra e Alemanha.

(3) Conflito Venezuela-EUA

(a) Tenções políticas e econômicas: O conflito recente tem como causa central a disputa política e econômica em torno do governo de Nicolás Maduro. Após as eleições de 2018, consideradas fraudulentas por Washington e por parte da comunidade internacional, os EUA passaram a não reconhecer a legitimidade do governo venezuelano, apoiando a oposição liderada por Juan Guaidó. Esse embate político foi acompanhado de fortes sanções econômicas norte-americanas contra Caracas, principalmente sobre o setor de petróleo, principal fonte de receitas do país.

(b) Aproximação da Venezuela com Rússia, China e Irã: Esses são adversários estratégicos dos EUA e as medidas adotadas foram vistas como uma ameaça à influência norte-americana na América Latina. Ao mesmo tempo, a crise humanitária, com milhões de venezuelanos emigrando, elevou a pressão internacional o governo venezuelano. Assim, o conflito Venezuela-EUA reflete uma disputa por legitimidade política e acesso a recursos energéticos, além da rivalidade ideológica e estratégica na região.

Como já tratei em outros artigos dessa coluna, o Brasil já possui enormes desafios no plano interno: crescimento da dívida pública e carga tributária, descontrole inflacionário e baixas taxas de crescimento e de investimentos. Já mencionei, o país peca por não promover uma coordenação entre as políticas fiscal (gastos do setor público e tributação) e monetária (controle dos juros).

Além da instabilidade política e institucional que ocorre desde a crise econômica do governo Dilma (entre 2015 e 2016 o Brasil viveu a pior crise econômica da história com quedas de cerca de 7% do PIB).

Adicionalmente, após a transição do governo Bolsonaro-Lula, o atual governo buscou obter protagonismo no plano geopolítico. Muitos analistas apontam que o Brasil rompeu com sua histórica tradição diplomática de neutralidade em termos de política externa. Esses são instrumentos que um Estado emprega para alcançar seus objetivos internacionais, defender seus interesses e projetar influência no cenário global. Isso pode ser alcançado por meio das seguintes práticas:

Diplomacia: negociação, diálogo bilateral e multilateral, participação em organizações internacionais e uso do corpo diplomático para mediar conflitos, firmar acordos e fortalecer alianças;

Instrumentos econômicos: comércio internacional, investimentos externos, acordos econômicos, uso de sanções e barreiras tarifárias usadas como forma de pressão ou cooperação;

Instrumentos militares: demonstração de força, exercícios militares, dissuasão e, em último caso, uso da força armada para garantir o alcance de interesses nacionais;

Soft power: promoção de valores culturais, ideológicos e políticos (educação, mídia, esportes, intercâmbios culturais, diplomacia pública), buscando conquistar corações e mentes;

Instrumentos jurídicos e institucionais: formatação de tratados, convenções, arbitragem internacional, uso de cortes internacionais e respeito (ou contestação) ao direito internacional;

Não pretendo entrar em especificidades, mas, considerando os aspectos acima, o atual governo buscou, e busca, intervir atabalhoadamente em assuntos de natureza geopolítica de forma desnecessária e imprudente.

Os resultados para o Brasil são os seguintes: aumento na instabilidade e incerteza econômica; indefinição de quais serão os resultados nas tarifas comerciais com um grande parceiro comercial, EUA; incerteza quando a cotação do dólar; forte volatilidade no mercado financeiro interno; incerteza quanto as taxas de investimento, níveis de atividade econômica e, por conseguinte, nos níveis de consumo, emprego e renda nacionais. O fato é que vários países já negociaram tarifas com os EUA e o Brasil está ficando para traz.

Usando o velho jargão, é hora do executivo “colocar a bola no chão”. Em que pese que teremos eleições em 2026, fato que torna o ambiente mais “apaixonado” ou “efervescente”, ainda há tempo do atual governo reavaliar o cenário, retrospectiva e prospectivamente, e mudar suas estratégias.

Todos os manuais defendem que as políticas econômicas devem garantir o crescimento do emprego e da renda e estabilidade de preços. Basta o atual governo focar nesses objetivos.

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