Levantamento global mostra que metas netzero avançam lentamente e que a falta de planos de transição plausíveis se torna um risco financeiro crescente

A sétima edição do Global Climate Action Barometer, estudo global conduzido pela EY, revela um alerta contundente para o setor corporativo: a falta de ação climática pode custar, em média, 15% da receita anual das empresas nos próximos anos. Os dados ganham ainda mais relevância no contexto pós-COP30, realizada em Belém, marcada como a conferência da “ação”.

Mesmo diante desse cenário, apenas 31% das companhias avaliam financeiramente tanto o custo da ação quanto o custo da inação relacionada aos riscos climáticos — sejam eles físicos ou de transição.

Embora 64% das empresas afirmem possuir um plano de transição, a maioria não apresenta progresso consistente ou até regride em relação a compromissos anteriores. Para Leonardo Dutra, sócio-líder de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da EY Brasil, a falta de avanço pode ser explicada por fatores como incertezas políticas e regulatórias, custos elevados e metas originalmente ambiciosas demais. “Algumas empresas assumiram compromissos muito ambiciosos e agora precisam revisá-los para torná-los alcançáveis”, afirma.

O levantamento também revela que 65% das organizações com metas netzero não possuem planos de transição realmente plausíveis. Entre aquelas que estabeleceram metas, 69% pretendem alcançá-las apenas até 2050, enquanto apenas 30% miram 2030. Para lidar com essas metas, três em cada cinco empresas já incorporam créditos de carbono em suas estratégias. Dutra ressalta, no entanto, a necessidade de cuidado: “As empresas precisam avaliar cuidadosamente o uso de créditos de carbono, considerando a complexidade da descarbonização em alguns setores e a disponibilidade limitada de tecnologias.”

Empresas ainda avançam pouco em precificação de carbono

O estudo mostra que 54% das empresas utilizam algum modelo de Internal Carbon Pricing (ICP). Em setores como energia e construção civil, a adoção é maior devido à maior exposição a possíveis impostos futuros sobre carbono. Entre as empresas que já aplicam o ICP, 87% divulgam seus preços, porém a maioria pratica valores inferiores aos recomendados pela Agência Internacional de Energia — o que pode resultar em decisões estratégicas desalinhadas com desafios ambientais reais.

Além disso, embora 68% das empresas afirmem ter realizado avaliações quantitativas de riscos climáticos, apenas 17% divulgam o impacto financeiro desses riscos. Para Dutra, a transparência é fundamental para acelerar o progresso: “Quanto mais empresas divulgarem esses impactos, mais outras seguirão o fluxo.”

Adaptação ainda avança lentamente

Apesar de 92% das empresas analisadas avaliarem riscos físicos — qualitativos ou quantitativos —, somente 44% implementam medidas efetivas de adaptação. A ausência dessas ações pode expor companhias a interrupções graves em seus modelos de negócio, o que preocupa investidores. Segundo Dutra, a adaptação foi um dos pontos centrais discutidos na COP30 e precisa se tornar prioridade empresarial.

Escopo 3 segue sendo o maior desafio

As emissões de Escopo 3 continuam sendo o ponto crítico para a maior parte das empresas, com 60% a 90% delas reportando apenas emissões a montante. O levantamento ainda mostra que 44% das metas reformuladas acabaram reduzindo seu nível de ambição, diante de limitações práticas como financiamento, marcos regulatórios e prazos viáveis para redução de emissões.

Como o Escopo 3 depende diretamente de fornecedores e consumidores, o desafio tende a ser maior. “Não se trata apenas de mudar as próprias operações, mas de transformar toda a cadeia de valor, desde fornecedores até o descarte dos produtos”, reforça Dutra.

O estudo conclui que o Escopo 3 pode representar entre 70% e 90% da pegada total de carbono das empresas — e que, sem ação concreta e integrada, o custo da inação tende a crescer rapidamente.

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