Pesquisa do Sebrae mostra que 63% dos pequenos negócios já sofreram impactos de eventos extremos; especialista alerta para a necessidade de antecipação e planejamento

A instabilidade climática deixou de ser um risco abstrato para se tornar um fator concreto de pressão sobre a operação das pequenas e médias empresas brasileiras. Levantamento do Sebrae aponta que 63% das micro e pequenas empresas já foram impactadas por eventos extremos, como secas, enchentes, tempestades e ondas de calor. Entre elas, 94% precisaram adotar medidas emergenciais para manter as atividades, o que evidencia um cenário de vulnerabilidade crescente.

Apesar da frequência dos impactos, a maioria das PMEs ainda atua de forma reativa. Apenas 18% possuem processos formais de gestão de risco climático, enquanto 72% afirmam não realizar qualquer tipo de diagnóstico estruturado sobre os riscos ambientais que cercam o negócio. O resultado é um ciclo recorrente de prejuízos, improviso e dificuldade de recuperação.

Para o oceanógrafo e mestre em oceanografia física Mateus Lima, CEO da i4sea, startup de inteligência climática, essa fragilidade estrutural torna as PMEs mais expostas do que grandes empresas. “As condições climáticas afetam mais as PMEs porque elas têm mais dificuldades de receber recursos ou apoios externos para se reerguer”, afirma.

Segundo o executivo, a mudança de postura passa necessariamente pela antecipação. “As PMEs devem se antecipar e buscar informações sobre possíveis eventos climáticos; dessa forma, esse pequeno investidor consegue se organizar financeiramente, pegando crédito, antecipando novos contratos ou se programando, para não ter grandes prejuízos”, ressalta.

A pesquisa mostra que as ações mais adotadas até agora são emergenciais e concentradas principalmente na gestão da água, com captação, reuso, reforço de estruturas, drenagem e reorganização logística. Também aparecem medidas como realocação de equipamentos e instalação de sistemas de refrigeração para enfrentar ondas de calor. Já iniciativas de mitigação, como eficiência energética, uso de fontes renováveis e monitoramento de emissões, ainda avançam lentamente.

O acesso a instrumentos financeiros específicos também é limitado. Apenas 5% das PMEs conseguiram recorrer a alguma linha de financiamento verde para implementar soluções estruturais. Esse gargalo reforça a importância do planejamento prévio, já que buscar crédito após um evento extremo tende a ser mais caro e menos acessível.

Para Lima, a prevenção climática precisa ser incorporada ao planejamento estratégico do negócio. “As PMEs devem estar atentas a ondas de calor, secas e eventos extremos que podem causar uma disrupção de dias na operação. Antecipar-se não é custo, é investimento em longevidade e resiliência”, alerta.

Além de reduzir perdas operacionais, a adoção de uma postura preventiva permite melhor organização financeira, diminui a dependência de apoios externos e amplia a competitividade de empresas que se estruturam antes das crises. Nesse contexto, os eventos climáticos deixam de ser apenas ameaça e passam a funcionar como gatilho para reestruturação e amadurecimento da gestão.

Como apoio prático, o especialista elaborou um checklist com ações objetivas que podem ser adotadas por PMEs de diferentes setores para fortalecer a resiliência climática e reduzir riscos operacionais.

Diagnóstico e monitoramento envolvem o mapeamento dos riscos climáticos da região, a consulta a previsões sazonais, a identificação das áreas mais vulneráveis do negócio e o registro de incidentes anteriores e seus impactos financeiros.

No planejamento financeiro preventivo, a recomendação é criar um fundo de emergência equivalente a um a três meses de custos fixos, consultar linhas de crédito antes da necessidade, revisar contratos com cláusulas de contingência e avaliar seguros voltados a perdas operacionais.

Na área de infraestrutura e operações, o foco está em verificar a resistência das instalações a eventos extremos, adaptar sistemas de drenagem e resfriamento, garantir alternativas de energia e planejar a realocação de estoques e equipamentos em situações emergenciais.

A gestão de fornecimento passa pela avaliação de fornecedores críticos, criação de planos alternativos, revisão de ciclos logísticos e negociação de prazos estendidos em caso de eventos climáticos.

Já na gestão de pessoas, o checklist inclui a criação de planos de trabalho remoto emergencial, orientações de segurança para deslocamento, definição de funções essenciais e manutenção de canais rápidos de comunicação com a equipe.

Por fim, ações de mitigação e eficiência envolvem diagnósticos básicos de consumo de água e energia, melhorias simples de eficiência, avaliação do uso parcial de energia renovável e estímulo a práticas sustentáveis na rotina interna.

A recomendação é que o plano seja revisado periodicamente, com registro de prejuízos evitados, atualização das estratégias e incorporação dos aprendizados ao planejamento anual da empresa.

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