Nesse espaço significativo e plural que o JVN nos proporciona com temas tão relevantes, entre diversas abordagens, posicionamos o cooperativismo como base estruturante da Economia Criativa e Solidária, a cultura como força motriz do desenvolvimento sustentável e, mais recentemente, a necessidade de modernizar os meios de comercialização sem romper com tradições e princípios. Essa reflexão nos conduz, agora, a um ponto decisivo: como transformar valores em permanência, discurso em política pública e intenção em estrutura concreta.
Economia Criativa e Solidária sustentável se faz com governança, políticas públicas integradas e infraestrutura adequada. Princípios são o coração do modelo, mas é a estrutura que garante sua sobrevivência no tempo. Sem ela, o risco é conhecido: iniciativas fragmentadas, dependentes de esforços individuais, vulneráveis às sucessões e ao cansaço de quem insiste em fazer tudo sozinho.
Governança: o que sustenta os princípios quando o entusiasmo passa
Governança, neste contexto, não é burocracia excessiva nem centralização de poder. Ao contrário, trata-se da organização coletiva da tomada de decisão, da definição de pactos éticos e da criação de mecanismos transparentes de coordenação entre atores diversos: empreendedores, coletivos culturais, cooperativas, poder público, universidades e sociedade civil.
Conselhos territoriais, fóruns permanentes, redes intercooperativas e instâncias participativas são fundamentais para garantir coerência entre discurso e prática. A governança é a guardiã dos princípios. É ela que impede que a modernização se transforme em mercantilização e que a inovação descaracterize identidades locais.
Em tempos de excesso de individualismo, insistir na decisão coletiva é quase um ato de resistência e, paradoxalmente, um gesto profundamente moderno.
Políticas públicas: induzir sem tutelar, estruturar sem engessar
A Economia Criativa e Solidária não prospera apenas pela boa vontade dos seus agentes. Ela exige políticas públicas claras, estáveis e integradas. Não se trata de assistencialismo, tampouco de paternalismo estatal, mas de indução estratégica do desenvolvimento local.
Compras públicas de produtos da economia solidária, editais estruturantes de médio e longo prazo, programas de incubação, assistência técnica continuada, acesso a crédito orientado, formação em gestão e comercialização são instrumentos fundamentais. Mais do que ações isoladas, é necessária uma visão sistêmica que articule cultura, desenvolvimento econômico, meio ambiente, educação e assistência social.
Quando o poder público compreende seu papel como articulador e não como protagonista absoluto, cria-se um ambiente favorável à autonomia, à inovação e à sustentabilidade dos empreendimentos.
Infraestrutura: o invisível que sustenta o visível
Muito se fala em produtos, feiras e eventos, mas pouco se discute a infraestrutura que torna tudo isso possível. Logística compartilhada, plataformas digitais coletivas, espaços híbridos de comercialização, comunicação territorial integrada e sistemas de informação são elementos decisivos para ampliar alcance, reduzir custos e fortalecer redes.
Essa infraestrutura não precisa, necessariamente, seguir os modelos do grande mercado. Pelo contrário: pode e deve ser pensada a partir dos valores da Economia Solidária com gestão coletiva, transparência, preços justos e valorização das histórias e dos territórios.
Tecnologia aqui, não é fim, é meio, deve estar a serviço das pessoas, não o contrário.
Economia Criativa e Solidária como política de desenvolvimento local
Quando bem estruturada, a Economia Criativa e Solidária deixa de ser apenas alternativa econômica e passa a ser estratégia de desenvolvimento local. Gera renda, fortalece vínculos comunitários, valoriza saberes tradicionais, reduz desigualdades e contribui para a permanência das pessoas em seus territórios.
Trata-se de um modelo que cresce sem destruir, que inova sem apagar o passado e que gera riqueza sem concentrá-la. Em um cenário de crises ambientais, sociais e econômicas recorrentes, essa não é apenas uma escolha ética, é uma escolha inteligente.
Atibaia e região: potência real, desafio concreto
Atibaia e região reúnem condições privilegiadas para consolidar esse modelo: diversidade cultural, produção criativa expressiva, feiras consolidadas, cooperativas ativas e um capital humano comprometido. O desafio não está na ausência de iniciativas, mas na articulação entre elas.
Sem coordenação, o risco é a dispersão. Com governança, políticas públicas integradas e infraestrutura adequada, existe a possibilidade concreta de construir uma referência regional em Economia Criativa e Solidária, capaz de inspirar outros territórios.
Do discurso à permanência
Se 2026 foi apresentado como ano de transição consciente, este é o momento de afirmar com clareza: não há futuro para a Economia Criativa e Solidária sem estrutura que sustente seus princípios. Tradição sem organização vira nostalgia, inovação sem ética vira mercado comum, política pública sem participação é vazia.
O caminho está no equilíbrio, firme, intencional e coletivo.
Seguimos, portanto, no compromisso com reflexões que não se encerram no papel, mas apontam para ações concretas. Porque desenvolvimento verdadeiro não se mede apenas em números, mas na capacidade de construir um futuro economicamente viável, socialmente justo e humanamente sustentável.
Aqui é para refletir, no dia a dia das cidades é para realizar!
Até o próximo artigo.

Bragatto é graduado em Gestão Estratégica Empresarial e possui ampla experiência no setor financeiro pelo Banco do Brasil. Como Gestor Público em São Carlos-SP, foi Secretário de Trabalho, Emprego e Renda, destacando-se no desenvolvimento da Economia Solidária e Criativa, além de sua participação no Fórum Social Mundial como membro do Fórum Paulista e da Rede Nacional de Gestores em Economia Solidária.
Ocupou a presidência da Progresso e Habitação de São Carlos S/A (PROHAB), implantou a Secretaria de Administração Regional e exerceu quatro mandatos como vereador. Atualmente, é Secretário Adjunto de Relações Legislativas e vice-presidente da UVESP.
Com forte atuação em temas como Valorização da Vida, Inteligência Emocional, Saúde Mental e Desenvolvimento Humano, é um palestrante requisitado por empresas, universidades e setores públicos. Para Bragatto, compartilhar gera evolução, e cuidar de pessoas promove desenvolvimento, melhores resultados e satisfação—todos por um mundo melhor.

