Olá, leitor(a), o Mapa da Inadimplência, elaborado pela Serasa Experian, registrou crescimento recorde no número de pessoas inadimplentes.
Fevereiro registrou 81,7 milhões de endividados no país e, nesse mês, houve o maior número de inadimplentes da série histórica. Considerando que o número de brasileiros inadimplentes era de 59 milhões em 2016, o aumento foi expressivo, 38,1%.
O mapa mostra que 26,8% das dívidas estão relacionadas ao uso de crédito bancário e cartões de crédito, seguido de utilities (contas básicas como água, energia elétrica e gás), 21,4%, contratos contraídos junto a financeiras, 20,3%, e contratação de serviços (basicamente serviços de telefonia e streaming), 11,6%.
Os dados indicam ainda que as mulheres totalizam 50,6% dos brasileiros inadimplentes. Quando o recorte é por faixa etária, indivíduos com idade entre 41 a 60, lideram com 35,6%, seguidos de pessoas com idade entre 26 e 40 anos, 33,5%. Já pessoas com idade acima de 60 anos representam 19,8%, enquanto pessoas com idade entre 18 e 25, é de 11,1%.

O valor médio das dívidas por pessoa é de R$ 6.598,13. Já o valor médio de cada dívida é de R$ 1.623,40. Finalmente, o mapa indica que cerca da metade da população brasileira, 49,9%, se encontra inadimplente. Com 55,06% de sua população inadimplente, o estado de São Paulo se encontra na sétima posição no ranking dos estados.
Além da ocorrência de despesas inesperadas, falta de planejamento financeiro, descontrole de gastos, uso inadequado de cartões de crédito por parte dos indivíduos, as principais causas da inadimplência são o desemprego, redução da renda das famílias e aumento do custo de vida.
Vale destacar que, em meio a um contexto de estagnação no crescimento da renda e elevada inflação, as famílias, sobretudo as de baixa renda, não encontram outra saída a não ser priorizar seu orçamento para as despesas básicas (alimentação, moradia, energia elétrica, água e gasto com transporte), em detrimento de suas obrigações financeiras.

Embora haja causas comuns, a “prática” da inadimplência se correlaciona com o estrato socioeconômico do indivíduo. Normalmente, grande parte das famílias de baixa renda possui seu orçamento vinculado à necessidades básicas.
Vamos discutir com um pouco mais de profundidade o dilema da inflação e dos juros no contexto de elevada inadimplência?
Em sua última reunião o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa de juros básica, Selic. Essa passou de 15% para 14,75% a. a. Em sua ata, o Copom salientou que, devido às incertezas trazidas pela guerra no Oriente Médio, a Selic não deve sofrer redução nos próximos meses. Devido à danos na infraestrutura de produção de petróleo e gás e bloqueio no Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 25% do petróleo comercializado no mundo, houve aumento no preço dos combustíveis, fato que tende a pressionar a inflação e levar o Copom a elevar a Selic.
A guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro, provocou uma verdadeira crise energética global. Como resultado, o preço do petróleo Brent chegou a ultrapassar US$ 100 por barril, intensificando o medo de desabastecimento. No Brasil, o litro da gasolina subiu em média 10%, fato que afeta o custo de transporte, o custo dos alimentos e toda economia.

Juntamente com a indefinição quanto aos rumos da política de juros e os impactos da própria inadimplência, os bancos tenderão a ser mais seletivos na concessão de crédito (fato que dificulta a renegociação das dívidas e leva os indivíduos em dificuldades financeiras, sobretudo as famílias de baixa renda, para linhas de crédito mais caras).
O aumento do preço do petróleo também atinge em cheio as empresas. Essas terão de operar em meio a uma tendência da manutenção de juros elevados e restrição ao crédito, em um contexto de aumentos de custos (enquanto a gasolina teve aumento de cerca de 5,5%, o diesel subiu cerca de 19% desde início da guerra), além de atuar em um cenário de elevada inadimplência.

O acesso ao crédito é fundamental no funcionamento das economias modernas: permite transformar poupanças em consumo e investimentos nas empresas; gera efeitos multiplicadores na economia (cada montante de crédito injetado na economia circula, estimulando inúmeras transações no sistema econômico, dinamizando as atividades de vendas de bens e serviços das empresas); macroeconomicamente, representa um mecanismo que impulsiona o consumo e o investimento, dois componentes fundamentais da formação do Produto Interno Bruto (PIB), provocando elevação na demanda agregada e incentivando as empresas a expandirem suas atividades.
A inadimplência representa um gargalo para a expansão da atividade econômica. Mais um dentre outros grandes freios do desenvolvimento econômico e um entrave aos negócios.
Vamos acompanhar.

Marcello Muniz é economista e mestre em Engenharia pela USP. Com 20 anos de experiência profissional, é perito judicial, atua como Analista de Negócios junto à Data Science Business Management (DBSM) e é professor de Economia junto à Unifaccamp (de Campo Limpo Paulista) e Faculdade Impacta de Tecnologia (FIT).
Atuou como pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (DEES), consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Analista de Projetos da Fiesp.
Apaixonado por temas relacionados a políticas públicas e economia, autor do livro Matemática para Economia (Ser Educacional), participou na qualidade de coautor de 13 livros, entre esses: Política Industrial (Jornal Valor Econômico), Outward FDI from Brazil and its policy context (Vale Columbia Center on Sustainable International Investment), Gestão da Inovação no Setor de Telecomunicações (Fapesp) e Ressurgimento da indústria naval no Brasil (projeto-Ipea-BID).

