Pela primeira vez na história, o Brasil registrou mais fechamentos do que aberturas de farmácias. O cenário, segundo especialistas, expõe falhas históricas de gestão e a urgência da digitalização para a sobrevivência do setor
Um sinal de alerta foi emitido para o varejo farmacêutico brasileiro. Dados recentes da consultoria IQVIA revelam que, pela primeira vez, o número de farmácias fechadas superou o de novas aberturas, marcando uma inflexão em um setor até então acostumado com a expansão contínua. O movimento indica que o mercado entrou em uma fase mais seletiva, onde a falta de gestão profissional e a ausência de uma estratégia digital deixaram de ser um risco para se tornar uma sentença.
Para Stephenson Seleber, presidente da Alpha7 Software e especialista no setor, o cenário não representa uma crise de consumo, mas sim um aumento no nível de exigência. “O mercado continua forte, mas ficou mais duro. Hoje não existe mais espaço para erro, improviso ou falta de gestão“, afirma.
A conta que não fecha: gestão e tributos

Na avaliação de Seleber, o fechamento de lojas é consequência de problemas estruturais que agora se tornaram insustentáveis. Ele aponta que muitos empresários ainda operam sem clareza sobre sua rentabilidade real, tomando decisões baseadas em percepção, e não em dados. “Tem muita farmácia que não sabe se está tendo lucro. Em um mercado mais competitivo, isso é fatal“, alerta.
A crescente complexidade tributária agrava o quadro. Mudanças como o fim da substituição tributária em alguns estados alteraram a lógica de precificação, exigindo um conhecimento técnico sobre crédito e débito de impostos que muitos varejistas não possuem. “Quem não entende o impacto de ICMS, PIS e COFINS acaba errando na precificação e perdendo margem sem perceber“, explica Seleber.
A concorrência agora está no celular
A transformação digital é, talvez, o fator mais contundente. Enquanto grandes plataformas como iFood e Mercado Livre avançam sobre o setor, grande parte das farmácias independentes ainda não se inseriu de forma estruturada no ecossistema digital. “O concorrente não está mais na porta da farmácia. Está no aplicativo, no celular do cliente. Quem não está no digital perde relevância e deixa de ser uma opção de compra“, afirma o especialista.
Custos antes considerados “invisíveis”, como o delivery gratuito, também começam a pesar. “Tem farmácia gastando mais de R$ 20 mil por mês com entrega e não cobra nada do cliente. Isso vira um ralo financeiro”, diz Seleber.
O cenário atual indica que o mercado continuará crescendo, mas de forma mais concentrada, favorecendo operações mais estruturadas. Para Seleber, o desafio agora é de mentalidade. “O empresário precisa entender que não é mais uma opção. Ou ele se adapta ao novo cenário, ou ele vai fechar. O mercado mudou e não vai voltar atrás.“

