Olá, leitor(a). Vamos discutir alguns dos desafios que a economia enfrentará nos próximos semestres?
O consumo das famílias e, fundamente, os investimentos produtivos das empresas em máquinas equipamentos, instalações, desenvolvimento de projetos de produtos e de processos produtivos, infraestrutura, entre outros, são os principais motores da atividade econômica, pois impulsionam as taxas de geração de emprego e renda. Vejamos …
Consumo das famílias
A renda nacional sofre influência dos níveis de demanda ou consumo das famílias. Na verdade, as famílias possuem certo nível de renda disponível. Essa é o que resta, após a incidência da tributação indireta (aquela que incide sobre o preço dos bens e serviços), tributação direta (aquela que é descontada na folha de pagamentos dos empregados que possuem contrato CLT e empresas formais, que pagam impostos).
Estatísticas oficiais da Receita Federal indicam que o Brasil registrou o maior nível de carga tributária dos últimos 22 anos, alcançando cerca de 32,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Isso deprime não apenas o consumo, mas também afeta as empresas. De fato, quando essa é elevada ocorre queda na competitividade dessas, elevação nos custos e redução na margem de lucro das empresas.
Devemos destacar ainda que, no Brasil, há pesados encargos sociais e trabalhistas (EST). Esses deprimem a taxa de emprego e crescimento da renda. Aproximadamente, cada R$ 1,0 pago aos trabalhadores formais gera R$ 1,2 em EST para as empresas. Como resultado, o mercado de trabalho fica estagnado e ocorre o aumento da informalidade.

Investimento produtivo
O investimento produtivo é um dos principais motores do crescimento econômico, pois amplia a capacidade produtiva e impulsiona a geração de emprego e renda, hoje e no futuro. Quando empresas e governos aumentam seus investimentos, estimulam a demanda por bens e serviços, impulsionando o crescimento econômico. No Brasil, a taxa de investimento produtivo é baixa, cerca de 17% do PIB, enquanto em países ricos essa é, em média, 25%.
O crescimento de investimentos em infraestrutura, tecnologia e inovação eleva a competitividade e a produtividade do país no longo prazo. Se por um lado, o investimento produtivo não cresce, por outro o governo possui pouca capacidade de investir. Uma das causas disso é alto nível de despesas obrigatórias (salários, aposentadorias e benefícios sociais), que consomem grande parte do orçamento. Além disso, o elevado nível de endividamento público eleva o pagamento constante de juros, reduzindo os recursos disponíveis para novos investimentos. Daí a importância do investimento direto externo (IDE), investimento em atividades produtivas feitas por empresas estrangeiras no país.
O IDE é fundamental o crescimento econômico, pois aumenta a capacidade produtiva e gera empregos. Importante destacar que esse induz a transferência de tecnologias, difunde conhecimentos e de modernas práticas de gestão. Além disso, esse fortalece a integração do país à economia global, aumentando as exportações e a competitividade internacional.
Infelizmente, houve queda no IED e fuga de empresas do Brasil. Tudo isso resulta da elevada carga tributária, incertezas regulatórias e excesso de burocracia. Vejamos alguns fatos e dados.

Em nosso país há uma imensa insegurança jurídica e elevada burocracia. Você deve saber, acompanhar pelas mídias e ou redes sociais isso. O “Custo Brasil”, é um fator decisivo para a saída de empresas. Temos elevada complexidade tributária e burocracia, infraestrutura de transportes precária e ineficiente, custo de capital elevado (em função de juros dos spreads bancários) elevados custo da energia elétrica e de combustíveis (em grande parte decorrente da incidência de impostos).
Sofremos ainda com uma elevada carga tributária. Empresas brasileiras, sobretudo as vinculadas ao setor industrial, enfrentam tributos que abrangem cerca de 50% do faturamento, levando à busca por locais com impostos menores, como o Paraguai, Uruguai e até os Estados Unidos. Finalmente, há um impacto sobre a área financeira. O retorno da taxação de dividendos (lucros distribuídos aos investidores de empresas de capital aberto, aquelas que possuem ações negociadas na Bolsa de Valores) levou a queda recorde de cerca US$ 5,0 bilhões em investimentos diretos em dezembro de 2025. Nesse ano, mais de 1.000 milionários se retiraram recursos do Brasil.
Funções de governo
Não é o “governo” que gera renda e as principais funções de suas políticas devem ser: (1) gerar o crescimento da produção, emprego e renda; (2) manter a inflação sob controle; (3) usar políticas públicas para garantir que famílias de baixa renda vivam com “dignidade”.

No primeiro caso, a elevada carga tributária eleva os custos das empresas, reduz a capacidade de consumo das famílias e, como resultado, reduz as taxas de investimento e o crescimento da renda.
No segundo caso, como o governo tendeu a ampliar muito seu nível de gastos sem, como contrapartida cortar despesas, não sobra espaço para ampliação do investimento público. Na verdade, a elevação dos gastos do setor público é uma das principais causas das elevadas taxas de inflação e manutenção de juros básicos elevados.
No último caso, não adianta distribuir renda para as famílias sem buscar que os beneficiados busquem “mérito”. Em vários estados cerca de 50% brasileiros hoje sobrevivem de “auxílios”. Qual a porta de saída? Programas de distribuição de renda deveriam estimular a recolocação dos beneficiários no mercado de trabalho.
O país deve se unir para a formulação de um amplo e abrangente plano de reformas estruturais que contribuam para reduzir a carga tributária e a elevação nos investimentos.
O próximo governo e nós teremos enormes desafios.

Marcello Muniz é economista e mestre em Engenharia pela USP. Com 20 anos de experiência profissional, é perito judicial, atua como Analista de Negócios junto à Data Science Business Management (DBSM) e é professor de Economia junto à Unifaccamp (de Campo Limpo Paulista) e Faculdade Impacta de Tecnologia (FIT).
Atuou como pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (DEES), consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Analista de Projetos da Fiesp.
Apaixonado por temas relacionados a políticas públicas e economia, autor do livro Matemática para Economia (Ser Educacional), participou na qualidade de coautor de 13 livros, entre esses: Política Industrial (Jornal Valor Econômico), Outward FDI from Brazil and its policy context (Vale Columbia Center on Sustainable International Investment), Gestão da Inovação no Setor de Telecomunicações (Fapesp) e Ressurgimento da indústria naval no Brasil (projeto-Ipea-BID).

