A intervenção e liquidação do Banco Master pegou muita gente de surpresa, especialmente pequenos investidores que tinham CDBs e LCIs rendendo “bonito” nos últimos meses.

Mas a verdade é que surpresa, surpresa mesmo… não foi. Há tempos se viam sinais claros de que algo não cheirava bem por lá. Eu mesmo cansei de dissuadir meus clientes de investir em títulos do banco, a despeito das insistentes ofertas por parte das corretoras e assessores de investimento (que recebiam generosas comissões a cada nova captação).

Não é preciso ser nenhum expert para perceber quando “algo de errado não está certo”.

1. Rentabilidade maior = risco maior (sempre)

Sabe aquele restaurante que está sempre vazio, mas oferece um prato duas vezes mais barato que o do concorrente? Ao passar na porta, você seguramente se pergunta o que ele tem de errado, né? Provavelmente o preço baixo é a única forma de atrair clientes, pois não consegue competir na qualidade.

No mercado financeiro funciona igual.
Se um banco pequeno oferece 130% ou 140% do CDI enquanto os grandes pagam 95% ou 100%, isso não é presente: é risco sendo precificado.

O restaurante não cobra mais barato por bondade. O “mercado” (nós consumidores) sabe que aquele restaurante tem qualidade inferior e, se não diminuir o preço, vai ficar vazio.

O banco não oferece mais rendimento por bondade. O “mercado” (investidores) sabe que aquela instituição tem qualidade inferior e, se não oferecer mais rendimento, ninguém vai investir lá.

O problema não é investir nesses produtos. O problema é fazer isso sem entender por que o retorno é maior.

2. Desconfiar do “bom demais pra ser verdade”

Quando um investimento parece uma oportunidade “imperdível”, vale parar e pensar:

  • Por que estão pagando tanto?
  • Outros bancos do mesmo porte estão pagando parecido?
  • É algo pontual ou existe um problema por trás?

É como quando alguém tenta te vender um carro “perfeito”, com preço muito abaixo do mercado. Pode ser um bom negócio? Às vezes, sim. Mas antes você olha documento, leva no mecânico, checa procedência.
No mundo financeiro, o processo é o mesmo: não investir sem investigar.

3. O FGC existe, mas não é uma capa de invisibilidade

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é um enorme alívio nessas horas. Ele protege até R$ 250 mil por instituição, incluindo rendimentos.

Mas muita gente não sabe um detalhe crucial:

👉 O FGC protege apenas quem investiu diretamente nos produtos cobertos.

Exemplos práticos:

  • Investiu direto em um CDB do Banco Master na sua corretora? → Tem proteção do FGC (até os limites).
  • Tem um fundo de previdência que, por dentro, aplicou em papéis do Banco Master?Não tem proteção do FGC.
  • Tem um fundo multimercado com exposição indireta ao banco? → Também não tem FGC.

O FGC não cobre fundos, nem produtos onde o investidor está indiretamente exposto, sem deter o título protegido em seu próprio CPF.

Isso não significa que o fundo vá necessariamente gerar prejuízo. Mas quer dizer que a proteção não é sua — quem assume o risco é o fundo, não o investidor final.

4. Diversificação não é capricho, é proteção

Crises bancárias acontecem. E quando acontecem, quem está diversificado respira fundo e segue a vida.

Pense em alguém que decide aplicar tudo em um único banco médio porque “tá pagando bem”.
Se o banco quebra, mesmo com FGC, ele pode ficar semanas sem acesso ao dinheiro e ainda corre risco de estourar o limite de garantia.

Se a mesma pessoa divide o dinheiro em quatro bancos diferentes, mesmo todos sendo médios, o risco fica muito mais distribuído, e a chance de ultrapassar limites do FGC diminui.

Diversificar banco, produto, prazo e até tipo de risco é uma das formas mais simples (e ignoradas) de proteção.

5. Renda fixa é estável, não infalível

Existe um mito no Brasil: “renda fixa é sempre segura”.

Segura de modo geral, sim.
Livre de risco? Nunca.

Renda fixa garante regras claras, não garantia absoluta. O risco existe; só é diferente:

  • risco de crédito (emitente quebrar)
  • risco de liquidez (não conseguir resgatar antes)
  • risco de concentração (tudo em um lugar só)

O caso do Banco Master serve como lembrete de que até produtos conservadores exigem atenção.

Investir bem é saber equilibrar risco e retorno

A crise do Banco Master reforça um ensinamento simples, mas que muita gente prefere ignorar:
não existe rendimento alto sem risco alto.

Para o pequeno investidor, as principais lições são:

  • desconfiar do que parece bom demais,
  • entender realmente como funciona o FGC,
  • lembrar que exposições indiretas não têm proteção,
  • evitar concentração exagerada,
  • e enxergar a renda fixa com o respeito que ela merece: sem ilusões.

Investir não precisa ser complicado, mas exige atenção. Quem aprende com episódios como esse constrói patrimônio de forma sólida, sem cair em promessas milagrosas.

No fim das contas, o Banco Master deixa uma lição simples: retorno alto sempre vem acompanhado de risco alto. Cabe a cada investidor decidir se está disposto a pagar esse preço.

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