Prezado(a) leitor(a), é com grande satisfação que informo que esse é o meu 50º. artigo dedicado para a coluna de Análise Econômica do JVN. Agradeço a você e a todos os colegas do JVN.
Esse artigo trata do escândalo do Banco Master. O caso nos ajuda a compreender aspectos econômicos, políticos e regulatórios relacionados ao funcionamento do mercado financeiro e bancário e porque falhas e ingerências sobre esses são prejudiciais.
A liquidação extrajudicial do Banco Master ocorreu em 18/11 por determinação do Banco Central do Brasil (Bacen). A justificativa foi que o valor dos passivos do Master, ou seja, suas dívidas, ultrapassaram o valor dos seus ativos. Esses são representados pelo uso dos recursos captados por meio da emissão e venda de CDB’s, LCI’s e/ou LCA’s a diferentes investidores, privados e públicos, sendo protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Bancos capitam, geram gastos e aplicam recursos. São empresas!
Trata-se de uma das maiores intervenções realizada pelo Bacen em uma instituição financeira no Brasil. Além dos problemas de liquidez, foram encontradas irregularidades no cumprimento de normas que regulam o sistema bancário nas operações do Banco Master.
O escândalo do Marca possui implicações econômicas, políticas e quanto a eficiência dos órgãos de regulação. Do ponto de vista econômico, a liquidação implica que investidores cujas aplicações ultrapassam R$ 250 mil, limite de garantia de ressarcimento prevista pelo FGC, certamente amargarão perdas. Do ponto de vista político, diversos parlamentares, incluindo seus familiares, possuíram relações com o banco e, também, membros do poder judiciário e seus “queridos”. Finalmente, do ponto de vista regulatório, há suspeitas de falhas nos processos de controle exercidos pelo Banco Central do Brasil (Bacen) e Comissão de Valores Mobiliará rios (CVM).
Vejamos esses pontos mais de perto?
Perdas econômicas para investidores
O FGC é uma regulação que objetiva proteger os investidores de eventual liquidação de algum banco. Todos esses contribuem com certa quantia para formar o fundo, sendo esse depositado em uma conta da própria instituição. No entanto, nem todos os títulos emitidos pelos bancos são garantidos pelo FGC (tais como ações e debentures). A instituição liquidante, no caso o Bacen, está realizando o levantamento da lista dos clientes do Master para promover o ressarcimento de valores até o limite previsto em lei.
Mais grave é a perda de certas instituições. Vários fundos de pensão investiram no Master, inclusive fundos de previdência públicos “muito bem gerenciados”. Estima-se que o Rio Previdência (fundo de previdência do funcionalismo público do Rio de Janeiro) depositou cerca de R$ 1,0 bilhão em títulos emitidos pelo Master e fatalmente esse amargara perda. Também consta que o Banco de Brasília (BRB) investiu cerca de R$ 15 bilhões no Master.
Esses e outros fundos sofrerão perdas significativas. Muitos analistas pontam a que houve falha nos mecanismos de governança de tais instituições. A perda é privada e pública e parece que nada funciona nesse país … Ocorre um escândalo após ou outro, sempre envolvendo empresários inescrupulosos e agora escalando para poder judiciário. Quem perde é o investidor, o pensionista e a população … Lembre-se disso: toda vez que os agentes públicos “falham” todos perdemos …
Certos analistas indicam que o BRB fez uma oferta de R$ 2 bilhões para adquirir o Master, sendo essa vetada pelo Bacen; fato que contrasta com a oferta feita de compra realizadas pelo banco BTG Pactual (R$ 1,0). Há um contraste impressionante. São profissionais é há enorme discrepância na avaliação? Cheira mau …. Novamente, é lamentável: o “jeitinho brasileiro” contaminou todas as instituições.
Envolvimento de parlamentares e operadores do sistema judiciário
O caso do Master é grave e expõe a inépcia das instituições e sua promiscuidade. Parece que nada funciona nesse país e, se funciona, age contra o interesse dos pagadores de impostos. Há ex-presidente e uma porção de ministros do STF, políticos e seus familiares envolvidos na teia do escândalo do Banco Master. Escrevo aqui no dia 23/12/25 e não param de surgir novidades e notícias sobre o escândalo. Poderia me estender e até gostaria, mas é isso … novas denúncias irão surgir, dado o avanço das investigações. São milhões para lá e cá …
Certamente haverá a operação “abafa”. Membros do STF, operadores jurídicos e ou político usam suas atribuições para se favorecer. MADA MAIS SURPREENDE! Há esposa de ministro do STF que ganhou seu “dindim” (R$ 3,6 milhões ao mês) e não consta que tenha prestados serviços significativos. Estão todos em absoluto silêncio e a “mão pesa na balança”. Lamentável. O que precisa mais acontecer?
Falhas na fiscalização do Bacen e CVM
O Bacen desempenha papel fundamental na regulação do mercado bancário, assegurar a estabilidade do sistema financeiro e garantir o funcionamento lícito das instituições financeiras. Entre outras funções, é missão do Bacen supervisionar e fiscalizar os bancos para assegurar que operem de forma sólida e em conformidade legislação. O Bacen também atua na regulação do crédito por parte dos bancos. A instituição vem sendo criticada devido a falhas no sistema de fiscalização. Cabe ainda destacar que o Master também esteve envolvido em operações de crédito consignado a aposentados.
Finalmente, a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDB’s) é regulada principalmente pelo Bacen, não pela CVM, pois os CDB’s são títulos de captação dos bancos, não valores mobiliários (como ações e debentures). Foram identificadas irregularidades nessas operações, além de maquiagem no Balanço do Master: os ativos foram superestimados e o inverso foi feito com os passivos (dívidas e obrigações com terceiros). Houve falha nos sistemas de controle …
Importante destacar que a CVM deve reforçar a fiscalização do Bacen ao supervisionar práticas do mercado financeiro que possam afetar investidores. É missão da CVM garantir transparência e integridade nas informações divulgadas pelos bancos quando esses instrumentos são ofertados ao público. O sistema falhou. A função da CVM é monitorar a observância de regras de divulgação, prevenir práticas enganosas e assegurar que as instituições financeiras mantenham padrões adequados de comunicação e de conduta no mercado e essa falhou no cumprimento de suas atribuições. Onde foi parar a governança corporativa e o compliance nas empresas e instituições públicas?
O que precisamos compreender? O mercado financeiro e de capitais possui papel fundamental, emprega profissionais de elevada formação técnica e profissional, possui sistemas de regulação e de análise de informações, riscos e exige sistemas que garantam milhões de transações financeiras por minuto. Mesmo com toda a regulação do Bacen e CVM, parece que nada nesse país funciona. Não há controle e agentes do judiciário, do executivo e do legislativo estão ai e esperamos que cumpram, minimamente, suas funções institucionais.
Há um problema crônico e “está tudo dominado”; nada funciona, o que funciona absolutamente é a eficiência do Estado para oprimir os contribuintes. Isso não falha e a sociedade segue pagando as contas. A questão é saber até quando vamos aguentar.
O caso do Marca é revelador. São bilhões, ingerências e um silêncio sobre o funcionamento das instituições.
Estamos por aqui e ótimo 2026 para todos nós!

Marcello Muniz é economista e mestre em Engenharia pela USP. Com 20 anos de experiência profissional, é perito judicial, atua como Analista de Negócios junto à Data Science Business Management (DBSM) e é professor de Economia junto à Unifaccamp (de Campo Limpo Paulista) e Faculdade Impacta de Tecnologia (FIT).
Atuou como pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (DEES), consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Analista de Projetos da Fiesp.
Apaixonado por temas relacionados a políticas públicas e economia, autor do livro Matemática para Economia (Ser Educacional), participou na qualidade de coautor de 13 livros, entre esses: Política Industrial (Jornal Valor Econômico), Outward FDI from Brazil and its policy context (Vale Columbia Center on Sustainable International Investment), Gestão da Inovação no Setor de Telecomunicações (Fapesp) e Ressurgimento da indústria naval no Brasil (projeto-Ipea-BID).

