Por Anderson Ozawa
O varejo brasileiro vive um paradoxo interessante. Nunca se falou tanto em crescimento, rentabilidade, expansão de canais e uso intensivo de dados. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil sustentar margens. Custos sobem, o consumidor está mais racional, a concorrência é implacável e as perdas — visíveis ou invisíveis — continuam corroendo resultados. Nesse cenário, é preciso dizer com clareza: lucro sem governança é ilusão. E governança sem controle de perdas simplesmente não existe.
Para quem acompanha o varejo, vale olhar além do faturamento anunciado nos balanços trimestrais. O que realmente separa empresas resilientes de operações frágeis é a capacidade de proteger o resultado. E isso passa, inevitavelmente, por governança e controle de perdas.
Durante muito tempo, o varejo foi guiado pela lógica do volume: vender mais resolveria tudo. Mas essa equação deixou de funcionar. Crescer sem controle é, na prática, ampliar ineficiências. Cada nova loja, cada novo canal, cada novo SKU aumenta também a complexidade operacional — e, com ela, o risco de perdas operacionais, que vão muito além do furto.
Perdas no varejo incluem rupturas, erros de inventário, processos mal desenhados, falhas sistêmicas, desperdício, fraudes internas e externas, além de decisões mal-informadas. Quando não há governança, essas perdas não aparecem claramente. Elas se diluem nos números, mascaram a rentabilidade e criam uma falsa sensação de desempenho.
Falar em governança no varejo não significa apenas ter conselhos, auditorias ou relatórios bem apresentados. Governança real se traduz em processos claros, responsabilidades definidas, indicadores confiáveis e decisões baseadas em fatos.
E aqui entra o controle de perdas como pilar estratégico. Empresas maduras já entenderam que prevenção de perdas não é um centro de custo, mas um instrumento de proteção do lucro. É ela que garante a integridade da operação, a confiabilidade dos dados e a disciplina necessária para sustentar margens ao longo do tempo.
Um ponto pouco explorado no debate público é que o maior risco do varejo não é perder dinheiro, mas não saber onde está perdendo. Empresas que não medem corretamente suas perdas tomam decisões baseadas em premissas equivocadas: investem errado, precificam mal, cortam custos onde não deveriam e ignoram gargalos críticos.
O varejo mais competitivo hoje é aquele que enxerga a operação de ponta a ponta. Que integra tecnologia, pessoas e processos. Que trata perdas como indicador estratégico e não como um problema operacional isolado. Esse varejo é menos vulnerável a crises, mais atrativo para investidores e mais confiável para parceiros e consumidores.
No fim das contas, o varejo que continuará relevante não será o que mais cresce em faturamento, mas o que melhor protege seu resultado. Porque lucro pode até ser comemorado. Mas só a governança — sustentada por um controle de perdas efetivo — garante que ele continue existindo amanhã.

Anderson Ozawa É CEO da AOzawa Consultoria, especialista em Prevenção de Perdas e Governança, consultor com mais de 40 programas de prevenção de perdas implantados com sucesso, palestrante, professor da FIA Business School e autor do livro “Pentágono de Perdas: Transformando Perdas em Lucros”

