Com mais de 51 milhões de jovens no país, geração transforma redes sociais em espaços de aprendizado, validação de ideias e criação de novos negócios
A Geração Z vem alterando de forma significativa a maneira de aprender, trabalhar e empreender no Brasil. Nascidos entre o fim dos anos 1990 e meados da década de 2010, esses jovens já somam mais de 51 milhões de pessoas no país e movimentam cerca de R$ 662 bilhões por ano em poder de compra, segundo dados do IBGE, FGV e da PNAD Contínua de 2025. Mais do que consumidores, porém, eles se consolidam como protagonistas de uma nova lógica de empreendedorismo, fortemente conectada ao ambiente digital.
Levantamento do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) aponta que cerca de 8 milhões de brasileiros da Geração Z já possuem o próprio negócio. Em grande parte dos casos, a jornada empreendedora começa nas redes sociais, que deixaram de ser apenas canais de entretenimento para se tornarem ferramentas de trabalho, aprendizado e validação de ideias. Dados da CAKE.com indicam que 97% dos jovens dessa geração utilizam as redes sociais como principal fonte de pesquisa sobre produtos, marcas e referências de negócio.
Para esse público, o ambiente digital funciona como um laboratório permanente. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube concentram conteúdos práticos, testes rápidos e troca constante de experiências, substituindo trajetórias profissionais lineares por caminhos mais fluidos e experimentais. Esse comportamento dialoga com pesquisas como a Deloitte Global 2024 Gen Z and Millennial Survey, segundo a qual 86% dos jovens da Geração Z consideram o propósito um fator essencial na carreira, enquanto 70% preferem marcas autênticas e com posicionamento claro, de acordo com a Edelman.
Nesse contexto, o marketing digital passou a ocupar um papel central na formação desses novos empreendedores. A produção de conteúdo e o contato direto com o público estimulam competências como comunicação estratégica, análise de dados, construção de marca e gestão de comunidade — habilidades fundamentais para quem decide empreender. O aprendizado acontece na prática, em ciclos rápidos de criação, mensuração e ajuste.
Um exemplo desse movimento é a DBout Mídia, agência de marketing digital fundada por Luis Parrela aos 22 anos. Especializada em estratégias para consultórios odontológicos, a empresa alcançou faturamento de R$ 5 milhões em 2024. Para Parrela, o digital funciona hoje como uma verdadeira sala de aula para o empreendedorismo. “A lógica do conteúdo é muito parecida com a do negócio: você testa, mede e ajusta. A gente aprende fazendo, sem perceber que está aprendendo”, afirma.
Segundo o empreendedor, a Geração Z já chega ao mercado com uma visão nativa de posicionamento e marca. “Não existe mais uma separação clara entre pessoa e empresa. A comunicação se tornou a principal ferramenta de diferenciação, e o marketing digital é a base para construir autoridade, atrair público e validar ideias”, explica.
Planejamento financeiro ainda é desafio
Apesar da familiaridade com o digital, o crescimento acelerado também impõe desafios. Para André Bobek, especialista da Mhydas Planejamento Financeiro, muitos jovens empreendedores iniciam operações com bom faturamento, mas sem estrutura de gestão adequada. “Fluxo de caixa, reserva financeira e separação entre capital pessoal e empresarial são fundamentais. Planejar não é burocracia, é o que garante liberdade para crescer com segurança”, destaca.
O empreendedorismo com propósito também se reflete em iniciativas como o Grupo MDT, fundado em 2021 por Jean Cabral e Diego Mylher, ambos com pouco mais de 20 anos à época. O ecossistema atua nos segmentos de saúde, beleza e suplementação, com marcas como iGummy, Sou Fit Moderno e Águas de Aurora, apostando em comunicação digital e diálogo direto com o consumidor. A meta do grupo é alcançar faturamento anual de R$ 300 milhões nos próximos três anos.
“Desde o início, buscamos criar marcas com as quais as pessoas se identifiquem. O digital nos permitiu crescer ouvindo o público, com base em dados e transparência”, afirma Mylher.
Uma mudança estrutural no mercado de trabalho
Estudos da Globo Gente indicam que até 2030 a Geração Z representará cerca de 30% da força de trabalho mundial. Diferentemente de gerações anteriores, esses jovens não veem o trabalho apenas como fonte de renda, mas como espaço de aprendizado contínuo, autonomia e impacto. Pesquisas da ZenBusiness e da Wakefield Research mostram que 82% acreditam ser mais adequados ao empreendedorismo do que a carreiras tradicionais, e 90% desejam criar algo que gere impacto positivo no mundo.
O resultado é um modelo de empreendedorismo que nasce no digital, mas transborda para o mundo físico, redefinindo relações de trabalho, consumo e aprendizado. Enquanto empresas tradicionais ainda tentam entender como dialogar com esse público, a Geração Z já utiliza o marketing digital como ferramenta de formação, estratégia e transformação dos negócios.

