Os números do mercado de trabalho brasileiro não contam a história que muitos insistem em repetir. Em 2024, o país superou a marca de 100 milhões de pessoas ocupadas, enquanto o desemprego recuou para os menores patamares da última década, segundo dados do IBGE. Ainda assim, empresas reclamam da dificuldade de contratar, líderes falam em falta de comprometimento e profissionais relatam exaustão, desalinhamento e frustração.

Se há trabalho e há pessoas dispostas a trabalhar, o que exatamente está quebrado?

A resposta não está na oferta de vagas, mas no acordo invisível que sustenta as relações de trabalho. O Brasil não enfrenta apenas uma crise de emprego. Enfrenta uma crise de acordo, uma ruptura no contrato psicológico entre empresas e pessoas.

Durante grande parte do século XX, o pacto era relativamente claro: estabilidade (ou a promessa dela) em troca de tempo, lealdade e obediência. Esse acordo nunca foi perfeito, mas funcionava dentro de um mundo previsível, linear e industrial. O problema é que o mundo mudou, e o acordo ficou.

Hoje, organizações operam em um ambiente pós-digital, marcado por instabilidade, aceleração tecnológica e transformação social, mas continuam exigindo comportamentos moldados por uma lógica que já não se sustenta. Fala-se em propósito enquanto se pratica controle. Promete-se crescimento sem clareza de caminho. Cobra-se engajamento sem oferecer coerência.

O resultado não é desinteresse. É recusa.

Como aponta o economista Guy Standing, ao analisar o avanço do precariado, o trabalho contemporâneo deixou de oferecer segurança, identidade e previsibilidade, pilares centrais do vínculo entre indivíduo e organização. Quando essas bases se rompem, o problema não é motivacional; é estrutural.

Essa tensão aparece com mais força nas gerações mais jovens, especialmente na Geração Z, frequentemente rotulada como “difícil” ou “descomprometida”. Mas a pergunta correta não é por que essa geração não se adapta, e sim: por que insistimos em oferecer acordos que não fazem mais sentido para ninguém?

Pesquisas globais sobre o futuro do trabalho, como os relatórios do Fórum Econômico Mundial, apontam que flexibilidade, bem-estar, clareza de expectativas e aprendizagem contínua deixaram de ser benefícios e passaram a ser condições básicas. Ignorar isso não gera resiliência; gera desgaste.

Não se trata de “trabalhar menos” ou “flexibilizar tudo”. Trata-se de combinar melhor. Clareza no que se espera. Honestidade no que se oferece. Coerência entre discurso e prática. Liderança capaz de escutar antes de cobrar.

Empresas que insistem em operar com métricas, linguagem e modelos mentais industriais em um mundo emocionalmente complexo não estão lidando com uma crise de produtividade. Estão lidando com uma crise de entendimento.

Enquanto esse acordo não for revisado, seguiremos discutindo desemprego, engajamento e performance sem tocar no ponto central. Porque nenhum sistema funciona quando as regras não são claras, e nenhum país prospera quando trabalha sem acordo com quem trabalha.

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