Estudo global mostra que ações ambientais integradas à digitalização têm gerado ganhos operacionais, redução de custos e aumento de produtividade em diferentes setores
A sustentabilidade vem deixando de ocupar um espaço secundário nas estratégias corporativas para se tornar um vetor direto de competitividade e resultados financeiros. De acordo com o estudo UN Global Compact–Accenture 2025, 98% dos CEOs pretendem manter ou fortalecer seus compromissos ambientais, com foco em iniciativas capazes de gerar impacto empresarial claro e mensurável.
Apesar desse movimento, ainda persiste a percepção de que práticas sustentáveis representam apenas custos adicionais. Na prática, porém, experiências em diferentes setores mostram que sustentabilidade e lucratividade caminham juntas quando apoiadas por tecnologia, inovação e uma visão integrada dos processos produtivos.
A transição passa pela adoção de uma abordagem holística da descarbonização, que envolve desde a mudança das fontes de energia até a redução do consumo, a eletrificação de processos e a revisão de produtos e cadeias de suprimentos. Nesse contexto, ferramentas digitais como o gêmeo digital — representação virtual de ativos e processos físicos — têm desempenhado papel central ao permitir simulações, testes de cenários e decisões baseadas em dados antes da implementação no mundo real.
Na indústria automotiva, a Mercedes-Benz utiliza gêmeos digitais para planejar sua transição para 100% de energia renovável até 2039. A empresa simula diferentes combinações entre geração própria, armazenamento e fornecimento da rede elétrica, otimizando eficiência energética, custos e redução de emissões. Sistemas desse tipo podem reduzir consumo de energia, emissões de CO₂ e tempo de planejamento em até 50%.
A eficiência energética também tem sido um dos pilares dessa transformação. Para atingir as metas globais de 2030, a indústria precisa reduzir o consumo de energia entre 23% e 25%. O fabricante espanhol de colchões Pikolin adotou soluções digitais e gêmeos virtuais ao projetar uma nova fábrica, integrando processos produtivos e conectando dados em tempo real. Hoje, a empresa coleta cerca de 30 mil pontos de dados, o que resultou em redução de 14% no consumo de eletricidade, 40% menos uso de gás natural e aumento de 30% na produtividade.
Outro caminho estratégico é a eletrificação do consumo energético. Atualmente, apenas 22% da energia consumida globalmente vem da eletricidade, percentual que deve chegar a 55% até 2050, segundo a Agência Internacional de Energia. A alemã Breitenburger Milchzentrale adotou sistemas híbridos de calor, equilibrando eletricidade e gás, o que trouxe mais flexibilidade operacional, redução de emissões e economia anual estimada em €300 mil em custos energéticos.
A descarbonização também avança no desenvolvimento de produtos e na cadeia de suprimentos. Estima-se que até 80% do impacto ambiental de um produto seja definido ainda na fase de design. A Becker Marine Systems, por exemplo, utiliza gêmeos digitais para projetar dispositivos que aumentam a eficiência energética de embarcações. Seu principal produto permite economia anual de até 10% de energia e já contribuiu para a redução de cerca de 19 milhões de toneladas de CO₂ em navios graneleiros.
Já a startup aeroespacial JetZero aposta em manufatura digital e simulações virtuais para desenvolver aeronaves com até 50% mais eficiência de combustível. O modelo permite reduzir riscos, acelerar certificações e alinhar inovação tecnológica com sustentabilidade desde o início do processo.
Além dos ganhos ambientais, ferramentas digitais ampliam a visibilidade da cadeia de suprimentos, facilitando a escolha de fornecedores com menor impacto ambiental, o acompanhamento de metas e a identificação de oportunidades de otimização.
Os exemplos mostram que o chamado “retorno do verde” é concreto. Empresas que integram sustentabilidade e digitalização não apenas reduzem sua pegada ambiental, como também ganham eficiência operacional, reduzem custos, aumentam resiliência e se posicionam de forma mais competitiva em um mercado cada vez mais exigente.

