Centralização excessiva, perfeccionismo e falta de confiança nos times mantêm executivos presos à operação, enquanto a IA surge como aliada para liberar tempo e ampliar a visão estratégica

Delegar faz parte da essência da liderança executiva, mas, na prática, continua sendo um dos maiores desafios para CEOs. Um estudo da Gallup, apresentado no relatório State of the Global Workplace 2023, revelou que cerca de 75% dos executivos entrevistados nos Estados Unidos admitem ter dificuldade em transferir tarefas e responsabilidades para seus times.

Segundo Rodrigo Magalhães, sócio da EXEC, a raiz do problema vai além da agenda cheia. “Muitos CEOs permanecem envolvidos em questões operacionais por falta de confiança, de coragem e, em muitos casos, por um nível elevado de perfeccionismo”, explica. Para ele, delegar exige um componente essencial: confiança. “A confiança está diretamente ligada à coragem. Para confiar no outro, o líder precisa ter a audácia de transferir decisões e ações para seu time direto e indireto”, afirma.

Delegar, no entanto, não significa abdicar do acompanhamento. “Mesmo quando o CEO delega uma tarefa ou função, ela precisa ser monitorada. Isso garante visibilidade do que está acontecendo sem a necessidade de executar tudo pessoalmente”, destaca Magalhães. Ainda assim, características como centralização excessiva e busca constante pelo controle dificultam esse processo.

Impactos da centralização no negócio

A dificuldade em delegar não afeta apenas o executivo, mas compromete o desempenho da organização como um todo. Entre os principais impactos estão a perda de visão de longo prazo, menor atenção às transformações do mercado e falta de foco nos objetivos estratégicos.

“O CEO que fica muito preso ao dia a dia acaba com menos tempo para pensar em inovação, transformação e futuro. Ele deixa de olhar para fora da empresa, perde movimentos do mercado e não se dedica às grandes metas que realmente movem o ponteiro do negócio”, alerta Magalhães.

A inteligência artificial aumenta ou reduz o problema?

Com o avanço da inteligência artificial, surgiram novos receios entre líderes. Uma pesquisa da ADN Digital mostrou que 43% dos CEOs entrevistados em diferentes países temem ser substituídos por máquinas. Para Magalhães, essa insegurança pode reforçar ainda mais a resistência à delegação.

“Participei recentemente de um fórum em Londres onde esse tema foi amplamente discutido. Ainda existem limitações claras na IA, principalmente no que diz respeito ao juízo de valor. A tecnologia não distingue, sozinha, o que é certo ou errado”, ressalta.

Ele afirma que a IA não deve substituir o CEO, justamente por carecer de atributos humanos fundamentais. “A decisão final ainda é de um humano, que se compromete com a informação, o diagnóstico e a ação. A IA entra como apoio à decisão, não como substituta da liderança”, explica.

Na prática, a tecnologia pode atuar como aliada do executivo, oferecendo análises de mercado, insights estratégicos, apoio à formulação de planos de negócio e até melhoria na comunicação corporativa. “Ferramentas de IA ajudam na redação de relatórios, e-mails, discursos e comunicados, além de contribuir para uma gestão mais eficiente do tempo”, destaca. De acordo com a mesma pesquisa da ADN, 45% dos executivos já utilizam o ChatGPT como apoio na tomada de decisões baseada em dados.

A IA também pode apoiar processos criativos e de capacitação. “Ela facilita a geração de ideias para novos produtos, estratégias de marketing e conteúdos de treinamento. O ChatGPT, por exemplo, possui uma base ampla de informações que ajuda a entender movimentos do mercado e a estruturar materiais educativos”, acrescenta Magalhães.

Para ele, resistir à tecnologia pode custar caro. O CEO que ignora a IA corre o risco de perder competitividade e espaço no mercado.

Como delegar mais e se tornar estratégico

Diante desse cenário, Magalhães elenca práticas para que CEOs consigam se desprender da operação e atuar de forma mais estratégica:

Ter um bom “N1”, cercando-se de líderes capazes de absorver a rotina operacional. “Vice-presidentes, diretores e gerentes precisam ser muito competentes para que o CEO consiga confiar”;
Criar rotinas de acompanhamento das metas estratégicas, com rituais de gestão que garantam visibilidade sem microgestão;
Usar tecnologia para monitorar indicadores e resultados, sem a necessidade de estar em todas as mensagens, e-mails ou grupos;
Exercitar a delegação diariamente, permitindo que as pessoas tomem decisões e evitando a centralização constante da gestão.

Para Magalhães, delegar não é perda de controle, mas ganho de liderança. “O papel do CEO é liderar pessoas, definir estratégias e tomar decisões que exigem criatividade, visão de negócios e empatia. É delegando que o líder extrai o melhor dos times e fortalece a gestão estratégica de pessoas”, conclui.

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