Mesmo com acesso a ferramentas, gestores tomam decisões baseadas em percepção e não em dados; especialistas alertam que confusão entre faturamento e caixa limita o crescimento

A ausência de uma gestão financeira estruturada continua sendo um dos maiores entraves para a longevidade dos negócios no Brasil. Dados do Sebrae revelam um cenário preocupante: cerca de 50% das empresas encerram suas atividades nos primeiros cinco anos, tendo a falta de controle sobre os números como um dos fatores determinantes. Mesmo em um ambiente com farto acesso a informações, muitas organizações operam sem visibilidade clara sobre o caixa, o que impede investimentos estratégicos e eleva o risco de estagnação.

Para Kleber Amora, especialista em estratégia empresarial e CEO da Berry Consultoria, a raiz do problema muitas vezes está na transição de profissionais técnicos para a gestão. “É muito comum que profissionais, especialmente os liberais, migrem de ramo e abram novos negócios. Eles entendem muito sobre suas áreas de formação, mas não sabem como administrar uma companhia”, afirma. Com o crescimento da operação, essa lacuna técnica começa a comprometer a saúde financeira, pois a gestão acaba sendo negligenciada em função da rotina operacional.

A armadilha do faturamento sem caixa

Um dos erros mais críticos apontados por Amora é a confusão entre faturamento, lucro e caixa. Muitas empresas apresentam faturamento crescente, mas não geram caixa real, criando uma falsa sensação de prosperidade que não se sustenta no longo prazo. “Sem controle financeiro, o empresário não sabe quanto pode investir, contratar ou crescer. Ele fica preso em decisões baseadas em percepção, e não em dados, o que limita o potencial do negócio”, explica o CEO.

Para garantir a viabilidade da operação, o especialista destaca que é essencial acompanhar indicadores-chave como a margem de contribuição — que revela se o produto ou serviço realmente sobra para pagar a estrutura fixa —, além de métricas como EBITDA e o retorno sobre patrimônio líquido (ROE). Esses dados permitem entender se a estratégia atual faz sentido ou se o negócio precisa de um ajuste de rota imediato antes de tentar expandir.

Como reverter o cenário de risco

Reverter a falta de controle não exige, necessariamente, a adoção imediata de sistemas complexos ou softwares caros. O primeiro passo é a disciplina no registro básico de entradas e saídas. “Não precisa começar com sistemas complexos, pode ser em uma planilha básica. O importante é registrar o que entra, o que sai e entender o resultado da operação”, orienta Amora. Para ele, o fundamental é que o empreendedor consiga enxergar o próprio negócio com clareza, pois, sem essa base mínima, qualquer decisão de crescimento torna-se uma aposta de alto risco.

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