Da Redação.
Anuário do mercado de locação revela que autônomos lideram a busca por imóveis, mas a dificuldade em comprovar o rendimento real e o alto comprometimento do orçamento da Classe C elevam o risco para o setor imobiliário
Um raio-x do mercado de locação no Brasil, baseado em mais de 109 mil propostas de aluguel, revela um cenário de alta demanda impulsionado por autônomos e jovens, mas também de crescente risco financeiro. Segundo o Anuário FC 2025, da plataforma de análise de crédito FC Analise, a Classe C chega a comprometer até 60% de sua renda com moradia, enquanto um fenômeno batizado de “renda inflada” dificulta a avaliação de crédito de MEIs e profissionais liberais, aumentando o perigo de inadimplência.
O estudo aponta que o comprometimento da renda com o aluguel é um ponto crítico. Enquanto a recomendação geral é que os gastos com moradia não ultrapassem 30% do orçamento, a pesquisa mostra que 48% dos pretendentes da Classe C direcionam entre 30% e 50% do salário para este fim, e outros 20% ultrapassam esse patamar, chegando a 60%. “Patamares acima de 30% indicam pressão no orçamento das famílias e aumento das chances de instabilidade financeira que possam influenciar no pagamento em dia”, afirma Marcus Costa, co-CEO da FC Analise.
Gerações Y e Z puxam a demanda, mas exigem agilidade
A pesquisa também mapeou o perfil de quem busca um imóvel para alugar. Profissionais com até 45 anos representam 72% dos requerentes, com a Geração Y (nascidos entre 1981 e 1996) concentrando 42% das propostas, seguida pela Geração Z (30%).
“A demanda é puxada por quem está em fase de formação familiar, mobilidade profissional e consolidação de carreira. Esse é o público que mais muda de endereço e tem pouca paciência para burocracia, o que exige processos rápidos e inteligentes de análise. É fundamental conhecer o perfil real dos inquilinos para transformar números em inteligência de mercado e oferecer melhores opções”, diz Costa.
O risco silencioso da ‘renda inflada’ em autônomos e MEIs

Um dos principais alertas do anuário é a dificuldade em avaliar corretamente a renda de trabalhadores autônomos, que já representam 54% da base de pretendentes, superando os celetistas (33%). O problema reside no modelo de comprovação via extratos bancários, que pode superestimar o rendimento real.
“Esse é um dos riscos mais silenciosos do setor. O extrato bancário é um espelho de movimentações e, no caso de profissionais que trabalham por conta própria e costumam misturar despesas pessoais e empresariais, boa parte dessas transações corresponde ao fluxo de caixa do negócio, e não à renda efetivamente disponível para pagar o aluguel”, observa o especialista da FC Analise.
Análise de dados como estratégia para mitigar riscos
Para evitar os altos índices de reprovação de propostas (que chegam a 64% na Classe C) e uma possível inadimplência, o estudo sugere que as imobiliárias adotem uma estratégia orientada por dados. “A recomendação é segmentar a carteira de imóveis por valores e perfis compatíveis; mapear os locatários por faixa de renda, idade e performance de pagamento; e conectar essa leitura com os dados socioeconômicos da região em que a empresa atua”, sugere Costa.
A tecnologia, segundo ele, é uma aliada nesse processo, com ferramentas que aplicam inteligência analítica para calcular o risco de cada perfil. “O crescimento do trabalho autônomo e de perfis mais dinâmicos de locatários exige novos modelos de análise de crédito, com inteligência de dados para possibilitar ao mercado decisões estratégicas com velocidade e segurança”, conclui o especialista.

