Presidente Edson Luís de Sousa

No mês passado tive a oportunidade de visitar a estrutura do Cosmopolitano Futebol Clube, em Cosmópolis, e conversar longamente com seu presidente, Edson Luís de Sousa, sobre um tema que vai muito além das quatro linhas. Confesso que cheguei esperando encontrar uma história sobre futebol. Saí de lá com uma reflexão sobre legado e sobre como o esporte, quando bem conduzido, se torna um dos instrumentos mais poderosos de transformação que uma cidade pode ter.

Antes de falar sobre o clube, preciso falar sobre o homem. Edson cresceu na Usina Ester, jogando descalço em campo de terra, com bola de meia quando o dinheiro não chegava para comprar uma de verdade. O pai era goleiro, e ele ficava atrás das redes assistindo às partidas até que alguém percebeu que aquele menino alto deveria estar do outro lado do campo. Um senhor da usina que comprava bola do próprio bolso e convocava as crianças aos sábados foi o primeiro incentivador. Depois veio um olheiro do Guarani, que o viu jogar numa partida qualquer, ficou impressionado, bateu no vestiário depois do jogo e convidou para um teste. Edson foi, entrou em campo como titular e fez três gols. Saiu de lá com contrato assinado, morou no estádio e viveu o sonho do futebol profissional. Só que o sonho tem contas para pagar, e o futebol de segunda e terceira divisão não sustentava a família. Então ele trocou as chuteiras pelo terno, entrou numa empresa, e saiu de lá anos depois como diretor administrativo e financeiro.

Esse trajeto não é só uma história bonita. É a chave para entender tudo o que ele construiu depois.

Foi exatamente essa formação do campo para o corporativo, e do corporativo de volta ao campo que moldou a visão que Edson trouxe para o Cosmopolitano. O projeto começou há cerca de 25 anos, não numa sede bonita, mas num campo próximo a uma favela perto do Shopping Iguatemi, em Campinas, onde violência, tráfico e prisões faziam parte do cotidiano de muitas famílias. Com um professor que punha dinheiro do próprio bolso, Edson começou distribuindo camisas usadas, chuteiras emprestadas e bolas velhas. A motivação não era financeira. Era humana. E é justamente esse detalhe que faz toda a diferença, porque projetos que nascem de paixão e propósito têm uma resistência que projetos nascidos de oportunidade raramente têm.

Durante nossa conversa, em determinado momento Edson se emocionou. Ele falou de um garoto cujo pai morreu de infarto duas semanas antes da nossa visita. O pai levava o filho para os treinos toda semana, era um torcedor fanático, tinha acabado de arrumar um emprego e duas semanas depois foi embora. O clube já estava ajudando a família com cesta básica e apoio financeiro, sem alarde, sem post nas redes sociais. Porque, nas palavras do próprio Edson: “A essência nunca pode deixar de ser social.” Essa frase resume muito do que eu vi naquele dia, e talvez seja a maior lição que o esporte tem a oferecer para quem decide investir nele.

Mas existe uma segunda camada nessa história, e é aqui que a análise econômica entra. Edson não é só um apaixonado, ele é um gestor. Trouxe para dentro do futebol os mesmos princípios que construiu na sua empresa de consultoria, a Expert: idoneidade, transparência, planejamento e responsabilidade financeira. Isso pode parecer óbvio, mas num cenário onde clubes centenários da região estão com estádios deteriorando e categorias de base sem receber salário há mais de um ano, a profissionalização se torna um diferencial competitivo real. O modelo de negócio do Cosmopolitano é mais sofisticado do que parece à primeira vista: o investimento pesado está na base, e o retorno esperado vem de transferências de jogadores para clubes maiores, potencialmente para o exterior, onde os valores chegam em euro e dólar. Um investimento que pode demorar anos para maturar, mas que quando acontece tem um potencial de retorno que poucas modalidades de investimento conseguem replicar. Para reforçar essa estrutura, Edson fechou parceria com a Vega Sports, empresa que organiza a São Silvestre e praticamente todas as grandes corridas de rua do Brasil, e que tem como sócio o Juan, ex-lateral do São Paulo, Flamengo e Arsenal. Gente que entende de futebol por dentro e que trouxe capacidade de captação de patrocinadores e investidores para o projeto.

E aqui surge uma reflexão que eu considero importante para os empresários da nossa região. Investir no esporte não deve ser visto apenas como patrocínio, deve ser encarado como investimento, com todas as letras. Investimento em desenvolvimento humano, em marca, em reputação e em transformação social. Quando uma empresa decide estar presente num projeto esportivo sério, ela não está apenas colocando o logo numa camiseta, ela está entrando na rotina de atletas, famílias e de toda uma comunidade que passa a enxergar aquela marca de forma diferente, mais próxima e mais humana. Edson me contou que os próprios funcionários da Expert torcem pelo Cosmopolitano, vão aos jogos e se envolvem nas campanhas sociais que o clube e a empresa realizam juntos ao longo do ano. O esporte criou uma identidade compartilhada que nenhum treinamento corporativo compraria.

Ao final da entrevista, perguntei a Edson qual mensagem ele gostaria de deixar. A resposta foi simples, e veio com a segurança de quem já viveu o suficiente para acreditar no que diz. Ele falou sobre fazer aquilo que se ama, com dedicação, paciência e propósito, e que os resultados nem sempre chegam no tempo que a gente espera, mas chegam quando o trabalho é feito da maneira correta. Enquanto deixava o clube, fiquei pensando que talvez essa seja a definição mais precisa de legado: não é sobre quantos títulos se conquista, não é sobre os troféus que ficam na estante, é sobre quantas vidas são impactadas ao longo do caminho. E nisso, o esporte continua sendo uma das ferramentas mais poderosas que temos para transformar realidades e, quem sabe, uma das melhores oportunidades de investimento que muitos empresários da nossa região ainda não enxergaram.

Até a próxima!

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *