Relatório inédito revela que a população da região produtora do Centro-Oeste e Norte registra maior índice de confiança nos Estados Unidos, apesar de a China absorver até 86% das exportações locais de proteína animal
O alinhamento comercial com grandes potências estrangeiras não se traduz necessariamente em simpatia ou convergência ideológica por parte dos produtores e residentes das principais regiões agrícolas do Brasil. Um relatório inédito intitulado “Como a Fronteira Agrícola Vê as Relações Internacionais”, elaborado pela Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI), aponta que, embora a China seja a principal compradora das commodities regionais — absorvendo 80% da soja e 86% da carne bovina exportadas pela fronteira —, o índice de confiança política da população dessa área pende substancialmente para os Estados Unidos.
De acordo com os dados estatísticos coletados pelo instituto, 21,8% dos entrevistados na fronteira produtora classificam os Estados Unidos como um parceiro “muito confiável”, enquanto apenas 12,6% manifestam o mesmo nível de segurança em relação à China. O levantamento demonstra que o nível de confiança no país asiático recuou quase 20 pontos percentuais no intervalo monitorado desde 2017, operando em sentido inverso ao crescimento do volume financeiro das trocas bilaterais. Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos coordenadores da pesquisa, esclarece o fenômeno: “A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente. A pesquisa mostra que confiança política e dependência econômica são coisas distintas e seguem lógicas diferentes”.
Pragmatismo ambiental e cultura política regional
A postura dos agentes e residentes da fronteira em relação à União Europeia (UE) também evidencia um comportamento caracterizado pelos analistas como conformidade pragmática. A pesquisa aponta que 74,3% dos respondentes reconhecem que o cumprimento das exigências ecológicas europeias eleva a reputação do Brasil no exterior. Em contrapartida, 66,9% afirmam que essas obrigações reduzem a competitividade de mercado dos produtos brasileiros e 61,5% avaliam que as regulações ambientais funcionam, primordialmente, como barreiras de proteção aos interesses econômicos internos da Europa.
Os pesquisadores pontuam que essa visão crítica é moldada por uma forte cultura política antiestatista dominante nas regiões Norte e Centro-Oeste. O ceticismo com as normas da UE e com o modelo estatal chinês encontra eco no perfil ideológico local: 83,5% dos entrevistados se autodeclaram de direita ou centro, 64,3% consideram as intervenções do governo nos negócios prejudiciais e 55,9% apontam um excesso de interferência estatal no cotidiano. Como os estados da fronteira agrícola somam atualmente cerca de 15% do eleitorado nacional, o crescimento de sua relevância política impõe limites reais para a formulação da diplomacia e das negociações externas conduzidas por Brasília perante Washington, Pequim e Bruxelas.
Metodologia do levantamento
O estudo quantitativo de opinião pública foi estruturado com base em entrevistas presenciais realizadas com 1.000 pessoas distribuídas por 70 municípios das regiões Norte e Centro-Oeste do país, cujo território responde por um quarto do total exportado pelo Brasil e gerou US$ 86,6 bilhões no ano de 2025. A coleta de dados em campo ocorreu entre os dias 25 de outubro e 18 de novembro de 2025. O relatório foi coordenado pelo professor Matias Spektor (FGV RI), em parceria com o pesquisador Guilherme N. Fasolin (Universidade de Vanderbilt) e com o analista Enrico Recco (FGV RI).
