Índice de Transformação Digital Brasil (ITDBr), elaborado pela PwC Brasil e Fundação Dom Cabral, aponta salto para nota 3,6; foco em eficiência de curto prazo e baixa adoção de IA ainda limitam visão de longo prazo no campo

O agronegócio brasileiro consolidou um avanço estrutural histórico em sua jornada de modernização tecnológica. De acordo com os resultados da nova edição do Índice de Transformação Digital Brasil (ITDBr), desenvolvido anualmente pela PwC Brasil em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), o indicador de maturidade digital do setor saltou de 3,1 em 2024 para 3,6 em 2025 (em uma escala que vai até 6,0). O desempenho posiciona o campo em um patamar altamente competitivo, encostando na média geral de todas as indústrias brasileiras avaliadas, que se fixou em 3,7 no período anterior.

O mapeamento metodológico revela que o segmento superou a média nacional em pilares estratégicos para a sustentabilidade corporativa. A dimensão de infraestrutura tecnológica obteve nota 4,4 (frente a 4,3 do mercado geral), enquanto o quesito estratégia alcançou 4,2 (ante 4,1 da média macro). O impacto mais imediato desse movimento reflete-se diretamente no chão de fábrica e nas lavouras: 90% das companhias do agro ouvidas relatam incrementos expressivos na eficiência operacional, e 54% apontam melhorias na agilidade e na assertividade dos processos de tomada de decisão.

O paradoxo da otimização versus a inovação disruptiva

Para Mayra Theis, sócia e líder do setor de agronegócio da PwC Brasil, a transformação digital no campo mudou de patamar de governança. “A transformação digital no agronegócio deixou de ser uma discussão sobre adoção de tecnologia e passou a ser uma pauta da liderança. O avanço depende menos das ferramentas disponíveis e mais da capacidade das organizações de estruturar processos, desenvolver pessoas e tomar decisões orientadas por dados”, avalia a especialista. O relatório confirma essa postura ao registrar que 49% das corporações do agro já se autodeclaram como “otimizadoras”, índice bem superior à média geral da economia, que é de 33,5%.

Contudo, o estudo joga luz sobre um gargalo crítico: a concentração excessiva em ganhos táticos de curto prazo pode comprometer o futuro global do setor. No pilar de inteligência artificial (IA), o agronegócio pontuou 3,4, permanecendo abaixo dos 3,7 da média industrial. A maior vulnerabilidade, entretanto, está na dimensão de fronteira tecnológica — que mede a absorção de tecnologias altamente disruptivas —, onde o agro registrou uma queda acentuada de 1,4 ponto, amargando a nota 1,8.

Desafios estruturais de planejamento

As barreiras internas para romper esse teto técnico são majoritariamente gerenciais. Para 54% dos executivos do setor, o principal obstáculo reside em desenhar a digitalização como um processo corporativo organizado, enquanto 46% citam a dificuldade de integrar ferramentas inovadoras a projetos que já estão em andamento. Essa resistência em adotar posturas mais arrojadas justifica o fato de apenas 8% das empresas do agro se enquadrarem no perfil “visionário”, metade do índice de 16% verificado na média geral dos demais setores produtivos.

Hugo Tadeu, diretor do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral, pondera que o momento exige uma transição de mentalidade dos produtores e agroindústrias. “Os resultados mostram que o agronegócio atravessa um momento de transição, concentrado principalmente na otimização de suas operações atuais. Ainda assim, a ausência de uma visão mais orientada ao futuro pode limitar a velocidade de evolução do setor diante das crescentes demandas do mercado global”, adverte.

O relatório conclui que a baixa relevância dada a roteiros estratégicos de longo prazo — citada por apenas 5% das lideranças do agro, contra 14% da média de mercado — indica que o setor precisa urgentemente transicionar de uma digitalização puramente tática para uma transformação de modelo de negócios, garantindo que a eficiência recorde de hoje se sustente diante das exigências futuras de rastreabilidade e sustentabilidade global.

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