
Tem uma coisa curiosa acontecendo em Atibaia que, para quem olha de fora, parece detalhe. Mas para quem acompanha o movimento do esporte e entende o que ele gera nas cidades, é sinal de algo muito maior.
Nos últimos anos, Atibaia virou endereço fixo no calendário de quem corre em trilha no Brasil. E agosto de 2026 não deixa dúvida sobre isso. No dia 1º, o Rocky Mountain Games trouxe centenas de atletas para o Parque Arco Iris, com a Pedra Grande como pano de fundo. No dia 29 e 30, o Sabin Run ocupa o mesmo palco com trail e corrida de rua, somando distâncias que vão de 7 a 21 quilômetros na montanha, mais opções na estrada, canicross, kids e até hike and fly. São dois eventos de peso em um único mês. E isso não acontece por acaso.
Antes de falar sobre o que esses eventos movimentam, vale entender por que Atibaia se tornou o que se tornou para o trail running nacional.
A resposta está no que a cidade tem de natural: a Serra do Itapetinga, a Pedra Grande, os parques, a altitude e um cenário que poucos municípios do interior de São Paulo conseguem oferecer. O trail running é, por definição, um esporte que depende do ambiente, e Atibaia entrega um dos melhores da região. Isso é vantagem competitiva real. Não é marca, não é investimento em marketing, é natureza. E natureza, bem aproveitada, vira ativo econômico permanente.
O Pedra Grande Ultra Trail Challenge, que aconteceu em maio deste ano e reuniu mais de mil atletas em sua sexta edição, deu uma mostra do que está em jogo. Seis distâncias, do 7K para iniciantes ao 80K para ultra-runners, atraindo perfis completamente diferentes de atletas, mas com um ponto em comum: todos precisaram dormir, comer, se deslocar e, muitas vezes, trazer família. Um número que chama atenção vem de dados de eventos similares no Brasil: o corredor de trail não vem sozinho. Ele chega acompanhado de amigos ou família, e fica em média cinco dias na cidade quando o evento permite. Isso multiplica o impacto de cada inscrição por um fator que vai muito além do valor pago na plataforma.
E esse impacto tem nome e endereço: o hotel que lotou no fim de semana, o restaurante que abriu mais cedo, a academia de equipamentos que vendeu a última mochila de hidratação na quinta-feira, o Airbnb que ficou sem vaga, o guia local que conduziu uma visita espontânea à Pedra Grande depois da largada. O esporte esportivo de aventura gera esse tipo de economia difusa, que não aparece em um único relatório, mas que toda a cidade sente.
No Brasil, os números gerais confirmam a tendência. O mercado de corridas de rua cresceu 29% entre 2023 e 2024 em volume de provas, chegando a quase três mil eventos em um único ano. A Maratona do Rio, para dar uma referência de escala, movimentou cerca de R$ 587 milhões na economia da cidade em 2025. Atibaia não é o Rio. Mas Atibaia tem algo que o Rio não tem: trilha de verdade, a menos de uma hora de São Paulo, com logística viável para qualquer corredor do interior ou da capital.
Essa proximidade com a maior metrópole do país é outro fator que Atibaia subutiliza quando não percebe o esporte de aventura como estratégia. O paulistano que gosta de correr em trilha, e são muitos, tem em Atibaia uma das opções mais acessíveis e completas que existem. E quando ele encontra uma cidade preparada para recebê-lo, ele volta. E quando volta, ele indica.
Para os empresários da região, existe uma reflexão importante aqui. Fins de semana como os do Rocky Mountain Games e do Sabin Run são pré-programados. Os organizadores divulgam as datas com meses de antecedência, as inscrições abrem antes ainda, e é perfeitamente possível saber com precisão quando um volume relevante de pessoas de fora estará em Atibaia. Isso é uma raridade no calendário comercial. A maioria dos negócios não tem essa previsibilidade. O esporte entrega isso. A pergunta é: a cidade está se preparando para essa chegada ou está deixando esse público passar?
Montar uma oferta de fim de semana para corredores não é complicado. Envolve saber que eles acordam cedo e precisam de café antes da largada. Que eles chegam na sexta à noite e costumam jantar fora. Que eles compram suplemento, buscam fisioterapia no dia seguinte à prova, querem conteúdo sobre as trilhas da região e, muitas vezes, já estão pesquisando o próximo evento enquanto ainda estão em Atibaia. Uma cidade que entende esse comportamento começa a criar soluções para ele. E soluções geram receita.
O trail running em Atibaia já está acontecendo. A Pedra Grande já é referência nacional. Os eventos já estão no calendário de milhares de atletas. O que ainda falta, em muitos casos, é que a cidade inteira perceba que esse movimento não é de um nicho, é uma vocação. Uma vocação que, quando bem desenvolvida, pode ser exatamente o que o título diz: uma fonte de valor permanente, renovável e difícil de copiar.
O petróleo, quando acaba, acaba. A montanha, quando bem cuidada, só melhora com o tempo.
Até a próxima!

Administrador com pós-graduação em Marketing pela ESPM, Thiago Grassi é consultor e palestrante, com mais de 10 anos de experiência em gestão de empresas. Atua na liderança de startups de tecnologia e marketing, com foco em inovação, automações e estratégias digitais. Apaixonado por esportes desde a infância, acompanha de perto o cenário esportivo e estuda o impacto econômico que ele gera nas cidades e regiões, explorando oportunidades de desenvolvimento local. Também atua como docente convidado do Senac nos cursos de Administração e Marketing.