Pesquisa do Ministério do Turismo/Unesco mostra que 40% das mulheres já realizaram viagens solo no Brasil, impulsionando exigências por infraestrutura, segurança e autonomia no trânsito
Viajar desacompanhada deixou de ser evento isolado para se consolidar como comportamento de consumo na indústria do turismo. Levantamento nacional realizado pelo Ministério do Turismo em parceria com a Unesco aponta que 40% das mulheres brasileiras já viajaram sozinhas e 31,4% fazem isso com frequência. Entre as principais motivações declaradas estão o lazer (72,6%), a busca por independência (65,1%) e o autoconhecimento (41,4%).
O estudo detalha que o Sudeste lidera em concentração de viajantes solo (72,9%), seguido do Nordeste (66,3%), Sul (50,3%), Centro-Oeste (37,3%) e Norte (29,5%). Na preferência por atividades, destacam-se os roteiros culturais (68,3%), o ecoturismo (64,2%) e as experiências gastronômicas locais (30,1%). O perfil predominante é de mulheres de 35 a 44 anos (34,6%), sendo que 67,7% não têm filhos.
Adequações na cadeia de serviços: o que o setor de turismo precisa mudar
Apesar da expansão desse perfil, a preocupação com a violência ainda baliza decisões de compra: 60% das entrevistadas já deixaram de viajar por receio de agressões ou furtos, e 60,6% relataram episódios de insegurança durante trajetos desacompanhadas.
A pesquisa do Ministério do Turismo/Unesco evidencia que o setor turístico precisa ir além do marketing tradicional e adaptar toda a sua infraestrutura operacional para garantir acolhimento e proteção às clientes:
- Protocolos de segurança e infraestrutura hoteleira: O mercado imobiliário e a rede hoteleira enfrentam a demanda por meios de hospedagem que ofereçam portaria e recepção 24 horas, controle rigoroso de acesso aos quartos, iluminação adequada de áreas comuns e políticas claras para lidar com situações de assédio ou importunação.
- Representatividade na linha de frente: Existe uma preferência clara por destinos e estabelecimentos que contem com maior contingente feminino no atendimento — como recepcionistas, guias de turismo, motoristas e instrutoras de passeios de aventura —, fator que eleva a percepção de conforto e segurança durante a estadia.
- Mobilidade e transporte auditável: Soluções de deslocamento (traslados, transfers e parcerias com aplicativos) precisam garantir rotas rastreáveis, motoristas credenciados e pontos de embarque/desembarque localizados em áreas movimentadas e bem sinalizadas.
- Transparência de dados e mapeamento de rotas: O setor público e privado são provocados a disponibilizar informações acessíveis sobre bairros e trajetos seguros, além de incentivar o uso de fornecedores devidamente cadastrados no Cadastur (o cadastro oficial do Ministério do Turismo).
Planejamento preventivo e segurança na estrada
O movimento tem incentivado o surgimento de iniciativas focadas na capacitação prévia de viajantes. Vittória Gabriela, fundadora da comunidade Dona Meu Destino — voltada à orientação de motoristas para viagens de longa distância —, ressalta que a autonomia passa pelo gerenciamento de riscos operacionais.
“Existe a ideia de que viajar sozinha exige coragem, quando, na prática, exige preparação. Quando a mulher adquire o conhecimento básico para lidar com o veículo e com imprevistos na rota, a viagem solo deixa de ser um receio e passa a ser autonomia”, aponta Vittória.
Para quem pretende viajar de carro desacompanhada, especialistas do setor recomendam um checklist de prevenção básica antes de pegar a estrada:
- Manutenção preventiva: Checagem da calibragem e do estepe, checagem dos níveis de óleo, fluido de freio, água do radiador e funcionamento de todos os faróis e setas.
- Ferramentas de emergência: Conferência do kit obrigatório (triângulo, macaco e chave de roda em boas condições), além de manter o celular carregado e levar um carregador veicular.
- Gestão de rota e abastecimento: Mapeamento prévio de postos de combustível e pontos de apoio, evitando trafegar com o tanque na reserva.
- Rede de apoio: Compartilhamento do roteiro e horários previstos de chegada com pessoas de confiança, mantendo salvos no celular os telefones de emergência locais (190, 192, 193 e Central 180).
