Com fraudes refinadas por inteligência artificial, especialistas alertam que o reconhecimento facial isolado tornou-se vulnerável e defendem a adoção de sistemas de autenticação em múltiplas camadas

O avanço acelerado das fraudes impulsionadas por inteligência artificial (IA) coloca em xeque a eficácia da biometria facial isolada — uma das ferramentas mais populares adotadas pelas instituições financeiras para autenticar a identidade de clientes. A disseminação de deepfakes, capazes de manipular fotos, vídeos e até mecânicas dinâmicas de “prova de vida”, levou especialistas em governança e tecnologia a alertarem que o mecanismo, embora continue válido, já não pode ser tratado como barreira suficiente de proteção na abertura de contas e na validação de transações financeiras.

A discussão ganha amplitude diante das exigências vigentes no sistema financeiro. A Resolução CMN nº 4.753/2019, emitida pelo Conselho Monetário Nacional e fiscalizada pelo Banco Central, não impõe o uso de uma tecnologia específica, mas determina de forma clara que os bancos adotem procedimentos atualizados e controles capazes de assegurar a integridade, a autenticidade e a validação das informações fornecidas pelos usuários.

Nova camada regulatória e antecipação de controles

Para Carlos Akira Sato, cofundador da Syscapital e especialista em Mercados Regulados, Governança e Inovação, o dinamismo dos ataques cibernéticos indica que a suficiência da biometria precisa ser permanentemente reavaliada pelo setor.

“Do ponto de vista regulatório, a pergunta mais importante não é se a instituição usa biometria facial, mas sim: o conjunto de controles utilizado continua efetivamente apto a verificar e validar aquela identidade?”, provoca o especialista, ressaltando que a sofisticação dos deepfakes torna a adoção de barreiras complementares indispensável.

Sato avalia que a escalada dessas fraudes pode acelerar uma evolução nas normas de identificação digital no Brasil, abrindo caminho para que o Banco Central estabeleça critérios mais objetivos para biometria e autenticação em processos de maior risco, como a abertura remota de contas.

No entanto, o especialista reforça que o mercado não deve aguardar a publicação de novos normativos formais para agir: “Considerando as medidas recentes do Banco Central contra fraudes, é razoável esperar que esse tema ganhe espaço na agenda regulatória em um horizonte próximo. E as instituições não deveriam esperar a nova norma para começar a rever e atualizar seus sistemas de segurança”, conclui.

Segurança em múltiplas camadas

Para reduzir a exposição a falsificações e mitigar riscos operacionais, a tendência é que o setor financeiro combine diferentes mecanismos de checagem em suas plataformas:

  • Detecção de injeção de imagens: Tecnologias capazes de identificar se a captura biométrica foi realizada diretamente pela câmera do dispositivo ou injetada por fluxos externos manipulados.
  • Análise comportamental e do dispositivo: Mapeamento de padrões de navegação e verificação da integridade do hardware utilizado durante a operação.
  • Cruzamento de bases e autenticação multifator: Validação de dados em tempo real em bases governamentais associada a etapas adicionais de confirmação de identidade.

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