Amigo(a), leitor(a)! Os períodos de eleições abrem importante janela para que possamos identificar as maiores preocupações da população brasileira e avaliar o que os candidatos pretendem fazer a respeito.
No dia 14/08, a Quaest divulgou pesquisa, encomendada pela Globo em parceria com o jornal O Globo, sobre as principais preocupações dos eleitores. Essa indicou que 33% desses mencionaram preocupação com a violência. Isso é corroborado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, elaborado pelo do Fórum de Brasileiro de Segurança Pública. Nele se constata que durante anos a economia e saúde lideravam as inquietações, mas que a violência voltou a preocupar os brasileiros. Tal fato reflete a sensação de insegurança da população, uma vez que houve sensível melhora em certos indicadores de segurança pública.
O tema economia, relacionado a assuntos vinculados ao custo de vida, inflação e emprego, surge em segundo lugar, com 15%. Isso resulta do impacto dos preços altos no orçamento das famílias. Já a saúde pública aparece com 14% e isso se vincula a fatos recorrentes no uso dos serviços do sistema de saúde pública: dificuldade de atendimento médico, filas em hospitais e morosidade nos processos de realização de exames e procedimentos. A corrupção, também objeto da pesquisa, pontua com 14% das preocupações dos eleitores. Finalmente, temas ligados a questões sociais e educação totalizaram 12% e 7%, respectivamente.

Em que pese que a violência figure como principal preocupação, os debates dos candidatos à Presidência da República em torno da temas vinculados à agenda econômica estão ganhando destaque, em particular a carestia vinculada à elevação nos preços de itens básicos de consumo, como alimentos e combustíveis. Essa afeta diretamente o poder de compra da população e se reflete no seu nível de satisfação.
No contexto em que 82% das famílias se encontram endividadas, para conviver com a carestia os consumidores fazem um malabarismo para manter seu orçamento equilibrado: excluem itens da lista de compras, trocam marcas prestigiadas pelas mais baratas, adiam consumo de certos bens (vestuário e calçados, móveis ou eletrônicos), consomem menos serviços ou vão com menor frequência aos pontos de comércio, restaurantes e bares.
Do ponto de vista dos negócios e, como meio de enfrentar as adversidades do mercado consumidor, as empresas reagem por meio de medidas clássicas: minucioso monitoramento do fluxo de caixa, busca de automação de processos e corte na oferta de emprego, corte de gastos com certos serviços, busca de renegociações com fornecedores. Apesar disso, em um contexto de quedas nas vendas, juros elevados, elevada carga tributária e custo Brasil, houve aumento nos anúncios de demissões e do número de pedidos de recuperação judicial, além do fechamento ou êxodo de empresas brasileiras para o exterior.

Tecnicamente, esse cenário se relaciona a duas grandes questões: juros elevados e orçamento público. De fato, a taxa de juros básica permanece em patamar elevado como meio de tentar conter a inflação, fato que encarece o crédito e inibe ou dificulta os investimentos das empresas (a Selic hoje é de 14% a.a.). Já o governo enfrenta grave problema no plano fiscal devido à dificuldade em fechar suas contas e controlar o déficit público (diferença entre o que o governo gasta e arrecada). Como resultado, há forte pressão para manutenção de juros elevados o que deprime o consumo e o investimento produtivos.
No contexto do cenário apresentado e pensando nos enormes desafios que a economia enfrentará em 2027, ao acompanhar as declarações e os debates dos candidatos à Presidência da República devemos ficar atentos. Tudo indica que haverá uma guerra de narrativas e um jogo de empurra-empurra sobre os responsáveis pela crise.
Então o ideal é ficar atento às propostas que os candidatos apresentarão para dar conta dos enormes desafios, entre esses: combate à inflação, redução dos juros, busca por redução e maior eficiência no uso de recursos e melhor controle nas contas públicas.
O aumento nas taxas de consumo, produção, vendas e investimento produtivo passa por essas variáveis.

Marcello Muniz é economista e mestre em Engenharia pela USP. Com 20 anos de experiência profissional, é perito judicial, atua como Analista de Negócios junto à Data Science Business Management (DBSM) e é professor de Economia junto à Unifaccamp (de Campo Limpo Paulista) e Faculdade Impacta de Tecnologia (FIT).
Atuou como pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (DEES), consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Analista de Projetos da Fiesp.
Apaixonado por temas relacionados a políticas públicas e economia, autor do livro Matemática para Economia (Ser Educacional), participou na qualidade de coautor de 13 livros, entre esses: Política Industrial (Jornal Valor Econômico), Outward FDI from Brazil and its policy context (Vale Columbia Center on Sustainable International Investment), Gestão da Inovação no Setor de Telecomunicações (Fapesp) e Ressurgimento da indústria naval no Brasil (projeto-Ipea-BID).
