Com mais de 10 milhões de brasileiros com deficiência auditiva, especialista aponta que a efetividade da Lei de Cotas depende de processos seletivos acessíveis e igualdade no desenvolvimento de carreira
Apesar de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicarem que 10,7 milhões de pessoas possuem algum grau de deficiência auditiva no Brasil, a inserção desse público no ambiente corporativo ainda enfrenta gargalos estruturais. Embora a Lei de Cotas (Lei nº 8.213/91) obrigue empresas com mais de 100 funcionários a destinarem vagas a pessoas com deficiência, barreiras na comunicação, preconceitos velados e contratações focadas apenas no cumprimento burocrático limitam o acesso e a retenção desses profissionais.
Para José Araújo Neto, CEO do ICOM — socialtech especializada em serviços de comunicação acessível para a comunidade surda —, a inclusão corporativa precisa migrar do cumprimento da norma para a criação de ambientes funcionalmente acessíveis.
Diretrizes para uma inclusão corporativa efetiva
A consolidação de um ambiente corporativo acessível exige das empresas a implementação de ajustes práticos em sua estrutura e processos de gestão:
- Cultura organizacional e conscientização: Desenvolvimento de políticas internas contra o capacitismo, focando nas habilidades técnicas dos profissionais e preparando as equipes para a convivência e cooperação diária.
- Processos seletivos acessíveis: Adaptação das etapas de recrutamento com o suporte de tecnologia assistiva, disponibilizando intérpretes de Libras em tempo real (inclusive em entrevistas por vídeo) e eliminando barreiras em testes de seleção.
- Equidade no desenvolvimento de carreira: Mapeamento de competências que garanta às pessoas com deficiência auditiva acesso a cargos de liderança, planos de promoção e equiparação salarial.
- Adoção de tecnologias assistivas: Implementação de alertas visuais nos escritórios, plataformas de tradução simultânea e sistemas de comunicação adaptados que assegurem a autonomia do colaborador na rotina de trabalho.
“A inclusão começa quando entendemos que pessoas surdas têm potencial e habilidades como qualquer outra. Não basta contratar para preencher cotas e manter profissionais estagnados em salários menores ou sem perspectiva de promoção. A tecnologia e a tradução em Libras eliminam ruídos, mas cabe às empresas transformar a acessibilidade em parte viva de sua cultura”, ressalta Araújo Neto.
