Durante muito tempo, falar sobre mudanças climáticas parecia uma conversa sobre um futuro distante. Algo que aconteceria em algum momento, talvez com nossos filhos ou netos. Hoje, basta olhar pela janela, acompanhar as notícias ou observar o comportamento do clima para perceber que esse futuro já chegou.
Chuvas muito intensas em períodos curtos, ondas de calor, secas prolongadas, tempestades cada vez mais severas e eventos que antes pareciam exceções passaram a fazer parte da realidade de muitas cidades.
E existe uma questão que precisamos enfrentar: até que ponto estamos preparados para viver em um planeta cujo clima está mudando?
A natureza vem dando sinais há décadas. O aumento das emissões de gases de efeito estufa, o desmatamento, a ocupação desordenada do solo, a destruição de áreas verdes, a impermeabilização das cidades e o desrespeito aos recursos naturais contribuíram para um desequilíbrio ambiental que já produz consequências concretas.
É como se durante muito tempo tivéssemos retirado da natureza mais do que ela conseguia oferecer e ocupado espaços que deveriam continuar cumprindo sua função ambiental. Agora, estamos começando a receber a conta.
Mas preparar as cidades para esse novo cenário não significa apenas construir muros, ampliar galerias de águas pluviais ou colocar equipes da Defesa Civil nas ruas quando a chuva chega. Isso é importante, mas é apenas parte da solução.
Uma cidade verdadeiramente preparada começa muito antes da catástrofe.
Ela preserva seus rios e nascentes. Mantém áreas verdes. Investe em arborização. Evita ocupações em áreas de risco. Planeja a drenagem urbana. Cuida das encostas. Amplia sistemas de monitoramento e alerta. Tem uma Defesa Civil estruturada e, principalmente, possui planejamento urbano de longo prazo.
Também precisa compreender que sustentabilidade não é um conceito separado do desenvolvimento econômico.
Uma cidade que sofre menos com enchentes protege seus moradores, preserva empresas, reduz prejuízos, evita interrupções no comércio, protege sua infraestrutura e melhora a qualidade de vida.
Cada árvore preservada, cada área permeável mantida e cada córrego protegido também podem representar uma forma de prevenção.
Talvez seja hora de mudarmos a pergunta.
Em vez de perguntar apenas o que uma prefeitura fará quando uma grande chuva acontecer, deveríamos perguntar o que ela está fazendo hoje para que os impactos sejam menores amanhã.
Isso vale para o poder público, mas também para empresas e para cada cidadão.
O desafio climático não será resolvido apenas com grandes obras. Ele também passa por pequenas decisões tomadas todos os dias: onde construir, como ocupar o território, quanto preservar, como descartar resíduos, como utilizar a água e que tipo de cidade queremos deixar para as próximas gerações.
As cidades da nossa região têm uma oportunidade importante pela frente.
Atibaia, Bragança Paulista, Jundiaí e tantos outros municípios cresceram e continuam crescendo. O desafio agora é fazer esse crescimento acontecer de maneira diferente, incorporando a sustentabilidade ao planejamento e entendendo que desenvolvimento não pode significar simplesmente ocupar cada vez mais espaço.
Precisamos construir cidades capazes de conviver com a natureza, e não cidades que tentem simplesmente vencê-la.
Porque a chuva não é nossa inimiga. O rio não é nosso inimigo. A floresta não é um obstáculo ao desenvolvimento.
Durante muito tempo, talvez tenhamos tratado a natureza como algo que deveria se adaptar às nossas necessidades.
O momento exige o contrário: precisamos aprender a adaptar nossas cidades aos limites da natureza.
Não se trata de impedir que chova. Não se trata de acreditar que podemos controlar o clima.
Trata-se de reconhecer que o clima mudou e que nossas cidades também precisam mudar.
Uma cidade sustentável não é apenas aquela que tem parques, árvores e espaços bonitos. É aquela que consegue proteger seus moradores quando a chuva chega, preservar seus recursos naturais quando a estiagem aparece e continuar funcionando diante de situações extremas.
O futuro das cidades será definido, em grande parte, pela capacidade que teremos de planejar hoje.
E talvez a maior lição que a natureza esteja nos dando seja justamente esta: não existe desenvolvimento verdadeiro quando o crescimento humano acontece às custas do equilíbrio que sustenta a própria vida.
Cuidar da natureza deixou de ser apenas uma escolha ambiental.
É uma necessidade econômica, social e, principalmente, uma questão de sobrevivência das nossas cidades.

JP Fehér é jornalista com mais de 17 anos de experiência na comunicação pública e privada. Especializado em Comunicação Pública Governamental pela USP, atuou em campanhas eleitorais e assessorou administrações municipais, coordenando estratégias de comunicação e fortalecendo o diálogo institucional. Também esteve à frente da comunicação de instituições do setor da saúde, promovendo iniciativas para aprimorar a comunicação interna e externa. Em sua trajetória, liderou equipes, desenvolveu estratégias institucionais e atuou na produção de projetos culturais via leis de incentivo em São Paulo e Minas Gerais.
