Pesquisas do Instituto Hibou e da ABEFIN revelam que 53% dos apostadores já atrasaram contas para apostar, enquanto 81,9% dos brasileiros diagnosticados com transtornos mentais apontam problemas financeiros como gatilho de ansiedade e depressão

A presença massiva e a consolidação das plataformas digitais de apostas esportivas, conhecidas como bets, ultrapassaram os limites do entretenimento e transformaram-se em uma crise sanitária e de vulnerabilidade socioeconômica no Brasil. Levantamentos de consumo e comportamento mostram que o hábito diário de apostar já compromete o orçamento de famílias, gerando inadimplência, corte em compras de itens essenciais e um ciclo contínuo de estresse emocional e endividamento.

De acordo com a pesquisa nacional Pulso | Apostas 2026, realizada pelo instituto Hibou com mais de 2.400 brasileiros das classes A, B, C e D, 38% da população adulta afirma realizar apostas esportivas. O estudo aponta que o hábito já se consolidou na rotina financeira: 39% apostam algumas vezes por mês e 33% apostam semanal ou diariamente.

A consequência sobre as finanças domésticas é imediata: 53% dos apostadores admitem que já deixaram de pagar alguma conta em dia para destinar o dinheiro a apostas. Além disso, 59% relataram ter reduzido as compras de itens essenciais para a casa por conta dos gastos nas plataformas.

Conexão direta entre endividamento e saúde mental

Paralelamente às perdas orçamentárias, o impacto psicológico do endividamento provocou um alerta entre profissionais da saúde. Pesquisa conduzida pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) em parceria com o Instituto Axxus — ouvida com mil pessoas com diagnóstico formal de transtornos psicológicos — revela que 81,9% dos entrevistados apontam as dificuldades financeiras como causa relevante para o surgimento ou agravamento de quadros de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout.

No levantamento da ABEFIN, o desequilíbrio nas contas superou o ambiente de trabalho e crises afetivas como o principal gatilho para o adoecimento emocional, sendo citado por 34,6% dos diagnosticados. Entre os pacientes que lidam com transtornos e problemas financeiros, 69,4% relatan dificuldade para pagar contas básicas, 60,1% enfrentam conflitos familiares e 56,1% apresentam distúrbios de sono.

Para o PhD em Educação Financeira e presidente da ABEFIN, Reinaldo Domingos, a ilusão de ganho rápido oferecida pelas apostas alimenta um círculo vicioso de perdas e desespero:

“Muitas pessoas entram nas apostas acreditando que irão resolver problemas financeiros ou conquistar uma renda extra. Quando as perdas aparecem, a tendência é tentar recuperar o dinheiro apostando ainda mais. Esse comportamento aumenta o endividamento, gera culpa, desesperança e pode desencadear ou agravar transtornos emocionais severos. As bets não podem ser analisadas apenas sob a ótica econômica. Estamos diante de uma questão urgente de saúde pública.”

Percepção de risco e a necessidade de educação financeira

A pesquisa do instituto Hibou revela uma contradição no perfil dos apostadores: embora 80% dos entrevistados concordem que as apostas esportivas têm alto potencial de causar vício, essa percepção não impede a manutenção do hábito ou a exposição aos riscos. Além disso, 21% dos apostadores admitiram ter sentido que o hábito já saiu do controle ou afetou negativamente sua vida pessoal e financeira.

A diretora de estratégia (CSO) do Instituto Hibou, Ligia Mello, ressalta que a conscientização isolada não tem sido suficiente para frear o consumo:

“Existe uma contradição no comportamento do apostador brasileiro: ele reconhece o risco de vício, mas isso não necessariamente altera sua rotina. É um sinal de que a percepção de risco, sozinha, não é suficiente para mudar o comportamento de consumo. É preciso estabelecer mecanismos de proteção financeira e emocional junto a esse público.”

Especialistas reforçam que a prevenção exige a implementação de programas contínuos de educação financeira nas escolas, empresas e comunidades, visando orientar a população sobre planejamento orçamentário, gestão de risco e construção patrimonial fora da lógica de jogos de azar.

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