Apesar da fé ter sido apreendida como uma experiência pessoal, cultural e comunitária, algo que denota identidade de determinado público, ela está inserida em uma sociedade que transforma hábitos potencial mercado, fazendo com que comportamentos sejam oportunidades de negócio. Desta forma, até a vivência da religiosidade parou nas prateleiras da expansão comercial. Lojas de artigos religiosos evoluíram para redes especializadas, franquearam-se. E, para além de qualquer julgamento, assumiram mercados que ditam comportamento e definem senso de pertencimento.
O feito não é um fenômeno isolado restrito ao Brasil, está, senão, ligado de forma mais íntima ao consumidor final. Uma franquia do segmento oferece identidade visual, gama de produtos mais bem definidos, além de uma experiência de compra que gera relação e transmite familiaridade. Desde a fachada, a loja passa a ser uma parte da realidade mais íntima e pessoal com o qual o cliente se reconhece. E é justamente nessa identidade que ele permanece e transfere seu culto para aquele espaço novo reservado ao sagrado. Para o empreendedor, a influência sob a bandeira da fé significa multiplicar conexões com seu público final, para o mercado, pode ser ainda um ponto de inflexão para direcionamento de pontos de vista.
É, justamente, nesse ponto que a discussão ultrapassa o balcão. Quando a experiência religiosa passa a ser mediada pela capacidade de criar o ambiente sagrado fora do espaço destinado, marcas, embalagens, músicas e livros ditam estratégias comerciais que ditam ou podem ser capazes de reescrever a percepção de valor do consumidor. Um objeto de devoção, carregado de significado pessoal, passa a disputar espaço com o apelo estético, com a conveniência da força da identidade visual e da forma com qual aquele novo público dita a forma de agir. A marca não vende a fé em si, mas pode influenciar, junto com o ponto de venda preparado, a forma como seus símbolos e produtos são consumidos, presenteados e reconhecidos socialmente.
Isso não significa, de forma alguma, que a espiritualidade tenha perdido sua autenticidade, nem que todo negócio religioso explore a crença que julgamos acreditar. Significa, porém, que até os territórios mais pessoais estão sujeitos à lógica de mercado. A franquia não precisa uniformizar convicções para padronizar o consumo. Mas a fé, inevitavelmente, parece não ter conseguido fugir da lógica dominante do mercado e parece caminhar, em parte, para uma uniformização em escala.
Ao fim, a pergunta não é se a fé foi sequestrada pela lógica do mercado. Dados históricos mostram que religião e comércio convivem de diferentes formas. A questão, aqui, é outra: quando a lógica comercial define a experiência, quem determina o valor do sagrado, a convicção de quem acredita ou a estratégia de quem vende?

Empresário no Segmento de Franquias com experiência em Gestão de Clientes Corporativos há mais de 25 anos. Multiprofissional formado em Comunicação com habilitação em Jornalismo pela UVA – Universidade Veiga de Almeida (RJ), com experiência em documentário, fotografia, rádio e produção de conteúdo pela Agência ZeroUm, SP.