Prezado(a) leitor(a), creio que todos estamos aliviados devido ao fim do processo eleitoral.
Nas democracias modernas, cada eleitor = 1 voto e deve vencer a maioria. Como na última eleição, o processo eleitoral foi extremamente polarizado. Muitas promessas foram feitas e o atual governo enfrentará enormes desafios, devido ao desequilíbrio fiscal (diferença entre o que o governo gasta e arrecada em impostos) que perdura.
As expectativas movimentam os mercados. Consumidores, empresários, investidores, especuladores e governos agem tendo como base essas. Como tudo na vida, há controvérsias. A eficiência de mercado é uma bordagem que considera que os preços dos ativos financeiros refletem todas as informações disponíveis.
Há muito trabalho a fazer e os mercados já regiram. O dólar chegou a desvalorizar mais de 8% e a Bolsa de Valores declinou cerca de 14% em 26/10. A perda de valor de mercado de certas empresas foi enorme: Magazine Luiza -58%; Vamos -57%; Hapvida -55%; C&A -47%; Assaí -43%.
As empresas que mais sofreram e sofrerão são, em sua maioria, vinculadas ao setor de varejo, consumo doméstico, locação e saúde. São aquelas vinculadas a atividades que dependem da oferta de crédito e do nível de atividade econômica interno. Se há expectativa de queda na renda disponível o consumo retrai e, com isso, investimentos nas empresas e as ofertas de empregos.
O governo eleito afetou as expectativas dos agentes econômicos ao fazer inúmeras promessas durante a campanha. A lista é longa: provisão de canetas emagrecedoras, “Programa pé-de-meia” para estudantes do ensino médio e universitários, implementar do fim da escala 6×1 sem redução salarial, PIX para MEI’s, antecipação do pagamento do Bolsa Família, e por aí vai …
Ocorre que, como sabemos, o espectro político que venceu as eleições possui um legado e terá de conviver e administrar esse. Vejamos:
- Aumento do endividamento do setor público (a relação dívida/PIB aumentou e hoje é de mais de 82% e tendência é de elevação);
- Elevada taxa de juros (a Selic é de 13,75%, que certamente não deve recuar, caso não haja redução dos gastos do governo);
- Aumento no endividamento das empresas estatais (o déficit foi de cerca de R$ 8 bilhões no primeiro semestre de 2026 e é cerca do dobro do registrado no mesmo período de 2025);
- Elevação nos pedidos de recuperação judicial das empresas (segundo o portal G1, no primeiro semestre de 2026, o estoque de empresas em recuperação judicial atingiu mais de 6,3 mil companhias, registrando uma alta de cerca de 6% em relação ao encerramento de 2025,);
- Elevada taxa de endividamento das famílias (essa ultrapassa 87%) e migração de empresas para o Paraguai.
O mercado espera inflação maior para 2027 e menor taxa de crescimento do PIB, destacando que há um enorme desajuste fiscal. Como acompanhamos, nos últimos anos, houve uma tendência de corrigir o déficit do setor público por meio de aumento de impostos, ao invés de promover cortes nas despesas do governo. Para sustentar seu aumento de gastos o governo aumentou a tributação e a conta não fecha.
Em breve, haverá elevação do ICMS sobre o preço da gasolina, diesel e gás, além de aumento das tarifas sobre os gastos com energia elétrica. Também o que se espera é a elevação do nível de carga tributária (a previsão da Contribuição sobre Bens e Serviços – CBS que seria de 9,3%, ao que parece será de 11,3%, acrescentando que o não sabemos qual será a alíquota do Imposto sobre Bens e serviços – IBS). Estima-se que, a soma desses impostos, CBS e IBS que comporão o Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) brasileiro, será a maior do mundo. Se nada for feito, trabalharemos cada vez mais para sustentar o governo …
Tudo que os consumidores e investidores esperam é que o governo realize o tão esperado equilíbrio fiscal e estimule o setor produtivo da economia … Sabemos, “não há almoço grátis”.
O governo precisa equilibrar suas contas e deixar de jogar o peso dessas sobre consumidores e empresas.

Marcello Muniz é economista e mestre em Engenharia pela USP. Com 20 anos de experiência profissional, é perito judicial, atua como Analista de Negócios junto à Data Science Business Management (DBSM) e é professor de Economia junto à Unifaccamp (de Campo Limpo Paulista) e Faculdade Impacta de Tecnologia (FIT).
Atuou como pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (DEES), consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Analista de Projetos da Fiesp.
Apaixonado por temas relacionados a políticas públicas e economia, autor do livro Matemática para Economia (Ser Educacional), participou na qualidade de coautor de 13 livros, entre esses: Política Industrial (Jornal Valor Econômico), Outward FDI from Brazil and its policy context (Vale Columbia Center on Sustainable International Investment), Gestão da Inovação no Setor de Telecomunicações (Fapesp) e Ressurgimento da indústria naval no Brasil (projeto-Ipea-BID).
