Vivo de biscate esperas que eu te sustente,
se eu ganhar algum no mate,
dou-te uns badulaques de repente…
andas de pareô e sigo inadimplente!  (“Biscate” – Chico Buarque)

Visitei Seul em 1989, através de um programa de intercâmbio – a cidade recém remodelada havia recebido as olimpíadas um ano antes – nossos anfitriões zelavam para que cumpríssemos uma agenda e trajeto pré-estabelecidos – como este nunca foi meu hábito, “escapei” por uma tarde e descobri a verdadeira cidade – uma teia de ruazinhas com toda sorte de comércio e serviços – nenhum glamour pouca limpeza, a cidade invisível que trabalha para a outra cidade ser vista…

Desde então desenvolvi o hábito de prestar atenção nos fluxos de desenvolvimento de cidades ou regiões, principalmente o que chamo de “cidade cigana”, orgânica, anárquica, pulsante – é como o verso do cartão postal – sem cor e sem graça, espaço vazio que se preenche com toda a sorte de informações, atividades, serviços e produtos; um enorme contingente de pessoas que se mobilizam para fazer rodar a economia paralela, que dá sentido e direção aos monumentos, praias, praças, shows, gastronomia, moda, etc.

Esta cidade ferve como formigueiro – tudo se opera por demandas percebidas intuitivamente – as necessidades modelam as ofertas, de ganho fácil e rápido, organização mínima e qualificação zero, geralmente oportunidade pontuais ou sazonais, informais e muitas vezes, ilegais!

Manicure – carreto – lava jato – marmita – telhado – borracharia – panfletagem…

Estes empreendedores inusitados são sobreviventes que encontram na cidade cigana seu habitat – são especialistas em tudo e formados em nada – contendas concorrenciais são resolvidas no tapa, os investimentos são pequenos e na base do fiado, é a terra da especulação e risco, sem margem para erro – empreendedorismo raiz, de fazer inveja a muito consultor…

Taxista – dogueiro – camelô – diarista – montador – instalador – passadeira…

A cidade cigana acorda, vive e dorme conhecendo apenas o significado da palavra necessidade – garante no dia a janta e o amanhã a Deus pertence! Mas é essencialmente funcional esta cidade escondida atrás dos shoppings e bulevares. onde os três por cento da elite usufruem seus privilégios, séculos de fama trabalhando em suas tenebrosas transações.

Engraxar sapatos, vender sanduíche, catar sucata, desentupir esgoto, fritar pastel, guardar carros, fazer barra de calça, vender pipoca, fazer gato, amolar facas…

É a cidade de verdade, sem moda e sem influencer, sem trade marketing, é o mundo da feira do rolo, do PIX, do fiado e do escambo – uma sociedade que sobrevive e se move no balanço da grande economia, sem valor, sem herança, sem perguntar por que…e não para nunca!

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