Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir… (Encontros e Despedidas – Milton Nascimento)
Salvador Dalí, o gênio surrealista espanhol costumava dizer sobre um dos seus quadros mais famosos, que a Estação de Perpignan era o umbigo do universo… particularmente sempre me encantou o mundo ferroviário, talvez coisa de infância, memória das viagens nos últimos trens de passageiros do estado de São Paulo, dos cenários de ferromodelismo, e as centenas de referências ferroviárias na literatura universal.
Observo neste 2025 que as cidades que trocaram seus dirigentes, trazem comportamentos parecidos com o movimento de uma estação de trem num feriado prolongado… muitos comboios chegando e saindo, levando cargas, passageiros, esperanças e ressentimentos; muita gente partindo “por enquanto”, outros para sempre. Na plataforma, saudades e tristeza de uns, enorme alegria de outros – “é a vida nessa estação, é a vida…”
Estes que circulam na estação, que não possuem coragem de seguir viagem, esperam esmolas dos passageiros que chegam – olham ávidos invejando as bagagens e mendigam um lugar ao sol, uma amizade, influência ou quem sabe, um emprego. Quem chega traz bagagens de todo tipo, mas alguns só tem a roupa do corpo e a consciência do recomeço. Também há milhares de passageiros de primeira viagem, que ainda não tiveram tempo nem de enjoar com o solavanco da rotina nos trilhos (ou fora deles).
Os motivos da viagem são diversos – agendas de um delirante idealismo, vendetas pessoais, e um sem número de turistas que nem sabem por que embarcaram ou nem fazem ideia de onde estão. Chegar é fácil – o trem traz você!!! Mas será preciso desembarcar e sair da estação, conhecer as ruas ao redor e situar-se num território novo e nem sempre o mapa da cidade está disponível: será um território hostil? Qual idioma se fala? Cada cidadão pode nos indicar caminhos diferentes; será preciso “ler” a rua, sentir a pulsação da cidade nas suas praças, ouvir seus cantores e poetas, conhecer lixeiros e construtores, a vida social estalando nas igrejas e botecos.

Estes novos viajantes, instalados nos cargos de primeiro escalão municipal, não tem muito tempo – se não compreenderem rapidamente o mapa, irão se perder vezes seguidas nas mesmas ruelas sem saída, uma experiência fantástica para um turista com tempo e sem responsabilidades, mas uma perigosa jornada para quem carrega a visibilidade e centenas de atribuições que vem com o cargo público. Não será possível fingir-se de morto, muito menos manter o otimismo inconsequente de políticos em campanha, que somente apertos de mão e tapinhas nas costas não governam uma cidade.
E estamos assistindo os grupos que viajaram e desembarcaram juntos e uniformizados – muitos já estão fugindo do roteiro programado da excursão e resolvem conhecer por conta própria os atrativos turísticos locais. Assim, confundem espaços públicos e privados, entrando nas casas dos outros sem convite, trocando a mobília e gerando espanto e irritação dos nativos locais… servidores municipais, por sua vez, ainda divididos pelas mágoas de campanha, procuram entender as novas linguagens e dialetos dos novos visitantes, pois falar o idioma não basta – é preciso entender os sinais. Para os turistas recém-chegados, as leis locais não fazem sentido e são ignorados marcos regulatórios, são anulados decretos e velhos costumes são questionados. Neste processo de mudanças, geralmente as “vacas sagradas” são sacrificadas para o churras do fim de semana.
O cenário se repete em milhares de cidades pelo país, deixando milhões de cidadãos ansiosos e ávidos em resgatar esperanças de mais saúde, educação, segurança, habitação, prosperidade e justiça. Quem chega precisa acelerar sua compreensão da cidade, ou perde o crédito eleitoral, que dura só alguns meses. Na falta de um repertório melhor para gestão municipal, os políticos e seus “parças” fazem o que sabem fazer melhor – falam mal dos antecessores, projetam tragédias anunciadas, reclamam da falta de recursos, vilões inventados para distrair munícipes e mascarar a falta de competência e estratégia. Os que permanecem em campanha também reprisam as pautas próprias da ideologia que supostamente seguem, sem perceber que governo é para todos e não só para seu seleto eleitorado – estas agendas panfletárias são inconsequentes, geram desgastes desnecessários e tornam a Babel ainda mais sinistra.
Assim viveremos nos próximos meses a estranha fase de ajustes na gestão das cidades – tem gente ajudando os novos visitantes, outros fornecendo direções erradas, mas o tempo fará com que estes “turistas” entendam onde e com quem se meteram; com esforço e vontade política espero que venham ativar agendas interessantes, escritas num idioma que todos compreendam e tragam transformações positivas para a cidade e seus habitantes.
Eu sempre tenho esperança!

Empreendedor social, consultor empresarial, educador e músico, pai da Mariana e cidadão de Atibaia. Possui mais de 40 anos de trajetória profissional transitada entre o meio corporativo e o terceiro setor. Atualmente é dirigente da ONG Mater Dei de Atibaia-SP e violonista do grupo Sentido do Samba.