Com projeção do IBGE indicando que 37,8% da população terá mais de 60 anos em 2070, transição demográfica pressiona os mercados imobiliário, financeiro e de trabalho a reverem modelos de negócios
O rápido envelhecimento da população brasileira — que viu a fatia de pessoas com 60 anos ou mais saltar de 8,7% para 15,6% entre 2000 e 2023, com projeção de atingir 37,8% em 2070 — impõe um desafio macroeconômico inédito ao país. Ao contrário de nações desenvolvidas que enriqueceram antes de envelhecer, o Brasil enfrenta o encerramento do seu bônus demográfico convivendo com informalidade, baixa capacidade de poupança e desigualdade regional.
Com a taxa de fecundidade em queda (1,57 filho por mulher) e a expectativa de vida projetada em 83,9 anos até 2070, a sustentabilidade financeira dos 20 a 30 anos adicionais de pós-carreira deixa de ser apenas uma pauta previdenciária e passa a exigir o redesenho da economia privada.
O reposicionamento dos setores imobiliário e financeiro
Para Daline Moura Hällbom, especialista em longevidade e CEO da Söderhem, o mercado corporativo ainda opera sob premissas ultrapassadas ao associar a população sênior apenas a custos de saúde ou assistência. A executiva defende a expansão da silver economy (economia da longevidade) por meio de soluções que preservem a autonomia e o poder de consumo dessa fatia populacional.
“Criamos uma sociedade em que chegar aos 80 anos será cada vez mais comum, mas ainda organizamos trabalho, patrimônio e aposentadoria como se a vida adulta terminasse aos 60. Essa conta simplesmente não fecha se não mudarmos a forma como pensamos longevidade”, analisa Daline.
O impacto estende-se diretamente ao mercado imobiliário e de investimentos:
- Novos produtos residenciais: Demanda por imóveis menores, com infraestrutura de serviços compartilhados, segurança e facilidade de mobilidade para pessoas maduras que buscam reduzir custos operacionais de moradia.
- Gestão de patrimônio e seguros: Necessidade de instrumentos financeiros flexíveis para cobrir ciclos de vida mais longos e prevenir a dependência econômica familiar.
- Inclusão no mercado de trabalho: Manutenção de profissionais maduros e autônomos em atividades produtivas e empreendedoras.
A especialista reforça a urgência de um planejamento prévio integrando governos e iniciativa privada. “O debate não deveria ser sobre como pagar por uma população longeva, mas sobre como construir uma economia na qual as pessoas consigam continuar gerando valor, participando e vivendo com autonomia por mais tempo”, conclui.
