Por Eduardo Yamashita, sócio-diretor da Gouvêa Inteligência
O Brasil vive um aparente paradoxo que tem intrigado a maior parte dos varejistas, indústrias, associações e parceiros. De um lado, indicadores de emprego e renda em níveis ótimos e em seus maiores patamares históricos. Do outro lado, o varejo e o consumo não reagem, apresentando crescimento fraco, queda de tráfego e uma sensação generalizada de estagnação. Em muitos segmentos, o crescimento nominal observado tem vindo mais da inflação do que do aumento real de volume.
Essa desconexão revela mudanças estruturais na composição da renda, no comportamento do consumidor e, principalmente, uma piora na qualidade do crescimento econômico. Entender esse fenômeno é essencial para quem opera nos mercados de consumo, varejo e serviços.
Boas novas que não chegam ao consumo
Os números de emprego mostram um mercado de trabalho forte, praticamente atingindo o estágio de pleno emprego (momento em que todos que querem trabalhar encontram uma vaga e rapidamente). A taxa de desemprego está no menor patamar da sua série histórica que começou em 2012.
A massa salarial (soma da remuneração dos brasileiros, já corrigida pela inflação) segue em crescimento, com a melhoria do índice de desemprego e com a inflação mais controlada, se comparada com os anos pós-pandemia.
Em teoria, esse seria o cenário ideal para impulsionar o consumo e, até a pandemia, existia uma correlação direta entre a melhoria desses indicadores e o crescimento do varejo. Entretanto, não é o que está acontecendo nos últimos três a quatro anos.
São diversos elementos compondo esse cenário, e vamos trazer alguns deles para nos ajudar a entender o panorama do mercado.
Composição da força de trabalho e do emprego
Uma primeira explicação está em uma mudança importante na composição do emprego: o crescimento tem ocorrido de forma heterogênea, com aumento mais relevante nas extremidades da pirâmide social, tanto nas classes de maior quanto nas de menor renda. Esse movimento, portanto, comprime a classe média, historicamente a principal responsável pelo consumo de maior valor agregado no País.
Na comparação de 2016 com 2026, há um crescimento expressivo dos trabalhadores que recebem mais como os que trabalham por “contra própria com CNPJ”, saltando de 4,8% para 7,1% da força de trabalho, assim como os “empregados do setor público”, que recebem acima da média.
Ao mesmo tempo, os trabalhadores que recebem menos também cresceram em proporção, como os “empregados do setor privado sem carteira”, que aumentaram sua participação de 10,8% para 13,1%. O resultado é um cenário em que as faixas de maior renda concentram ganhos, a base de baixa renda se expande e a classe média perde espaço.
Participação da força de trabalho
Outro aspecto a considerar é a queda da taxa de participação na força de trabalho. Parte da redução do desemprego não vem apenas da geração de vagas, mas também da saída de pessoas do mercado. Com uma quantidade menor de pessoas procurando emprego, há uma melhora do indicador, mas que distorce a leitura sobre a real força da economia.
Pela própria metodologia do IBGE, é considerado empregado quem trabalhou de forma remunerada por mais de uma hora na semana, o que pode mascarar o subemprego e também refletir impactos de programas sociais que influenciam tanto a formalização quanto as respostas das pesquisas.
A taxa de participação na força de trabalho segue baixa, atualmente em 62,6%, ainda distante dos 66,5% registrados no início dos anos 2000. Esse indicador mostra que uma parcela relevante da população permanece fora do mercado, seja por informalidade ou desalento.
Consumo pressionado
Outro fator crítico é o nível de comprometimento da renda das famílias. Os dados do Banco Central mostram que cerca de 30% do orçamento familiar está comprometido com dívidas, enquanto aproximadamente 10% da renda mensal é destinada apenas ao pagamento de juros. A piora desse dado é extremamente relevante, pois, antes mesmo de consumir, uma parcela significativa da renda já está comprometida.
Esse cenário se agrava com o elevado nível de inadimplência. Dados de janeiro de 2026 da Serasa apontam que 81 milhões de brasileiros estão com dívidas em atraso, 11 milhões a mais do que em janeiro de 2023. A consequência é que os consumidores estão mais restritivos, priorizando despesas essenciais e adiando compras que podem ser postergadas.
O impacto direto no varejo
Esse novo contexto tem efeitos claros no desempenho do varejo. Um dos mais visíveis é a queda de tráfego em lojas físicas e digitais. Menos visitas significam menor conversão total, mesmo que o ticket médio possa estar sendo sustentado por reajustes de preços.
Outro efeito importante é o crescimento puxado pela inflação, pois, em diversos segmentos, o faturamento nominal sobe, mas o volume vendido cai. Os dados abaixo sobre o desempenho do varejo em 2024 versus 2025 por segmento evidenciam esse cenário.
O cenário econômico continua complexo, com novas variáveis surgindo, como a pressão inflacionária decorrente do aumento do preço dos combustíveis, ao mesmo tempo em que se espera o início de um ciclo de queda na taxa de juros.
Fica evidente a necessidade de uma análise mais abrangente e profunda, pois o atual paradoxo brasileiro não parece ser um ponto fora da curva ou de curto prazo, mas sim uma transformação estrutural mais ampla, que exigirá adaptação do consumo, do varejo e dos serviços a essa nova realidade e a esse novo consumidor.

Eduardo Yamashita é sócio-diretor da Gouvêa Inteligência, divisão da Gouvêa Ecosystem

