Fragmentação de catálogos e alta de preços elevam o cancelamento de serviços; setor perdeu 1,6 milhão de assinantes de TV paga em apenas um ano

O mercado brasileiro de mídia por assinatura inicia 2026 marcado por um esgotamento evidente do consumidor. Dados da Anatel mostram que a TV por assinatura encerrou 2025 com 7,6 milhões de acessos, após perder 1,6 milhão de clientes no ano — o menor patamar desde 2009. Em relação a 2014, quando o setor atingiu seu auge com 19,6 milhões de assinantes, a queda já supera 60%.

Embora o streaming esteja presente em cerca de 34 milhões de domicílios, o ambiente também enfrenta forte pressão. Levantamentos indicam que 39% dos brasileiros pretendem cancelar ao menos uma assinatura, motivados por aumentos de preço e pela sensação de sobrecarga. Para Felipe Sant’Anna, especialista da Axia Investing, o cenário é perigoso: “Cancelamento significa perda de receita recorrente e lucratividade. As teles estão passando a depender cada vez mais de banda larga e dados como principal receita“.

Inteligência Artificial contra o cancelamento

Além da perda de receita, as operadoras enfrentam o alto custo de aquisição de novos clientes. Para Joney Augusto Palma, CPTO da Datarisk, manter o cliente atual é a prioridade. “Muitas empresas estão investindo em inteligência artificial através de modelos preditivos para identificar o perfil dos futuros desistentes”, explica. Ao identificar sinais precoces, as companhias conseguem ajustar planos e jornadas para restabelecer o valor percebido.

O comportamento do público também mudou com o fenômeno do subscription cycling — a troca constante de serviços. Pesquisas indicam que 64% dos brasileiros já cancelaram algum streaming e 14% chegaram a cancelar todas as assinaturas em determinado momento, revelando um consumidor mais transitório e pragmático.

Fragmentação e o custo cognitivo

Para a Dra. Lilian Carvalho, professora da FGV, a pulverização do conteúdo em muitas plataformas compromete a experiência. Segundo ela, quando o esforço de gerenciar catálogos e preços cumulativos não compensa, o consumidor busca atalhos. “A pirataria, nesse contexto, não cresce por preferência, mas por frustração com a experiência oferecida pelos serviços legais”, afirma.

A especialista conclui que o problema vai além do bolso. “Não é apenas pagar mais, mas ter que escolher e procurar mais. Quando o custo cognitivo supera o benefício, o consumidor não se compromete com nenhuma plataforma”.

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