Especialista alerta que a facilidade do “Banking as a Service” esconde riscos operacionais; foco do setor migra de marketing para estrutura e governança

O mercado financeiro brasileiro, impulsionado pelo Pix e pelo Open Finance, atingiu um patamar de dinamismo que permite a quase qualquer empresa criar sua própria fintech. No entanto, a facilidade de entrada via Banking as a Service (BaaS) tem mascarado uma complexidade operacional perigosa. Para Rafael Franco, CEO da Alphacode, o erro clássico de varejistas e empresas de tecnologia é tratar serviços financeiros como um projeto de marketing, ignorando que a atividade exige estrutura robusta e gestão de riscos rigorosa. “Fintech não é projeto de marketing, é estrutura e governança”, afirma.

Segundo o especialista, a incorporação de contas digitais e crédito próprio faz sentido estratégico para aumentar a retenção e as margens, mas o crescimento sem maturidade operacional é um caminho para o prejuízo. “Quando uma empresa decide conceder crédito, ela passa a assumir risco de inadimplência e precisa estruturar a cobrança. Se esses fundamentos não estão organizados, a tecnologia apenas acelera a exposição ao erro”, pontua Franco. O cenário atual exige que a sustentabilidade do modelo de negócio seja priorizada em detrimento do volume de downloads do aplicativo.

Maturidade e Arquitetura Estratégica

A nova fase do setor é marcada pela necessidade de controle sobre os ativos. Embora soluções white label facilitem o lançamento rápido, elas podem limitar a autonomia estratégica a longo prazo. Rafael Franco defende que a discussão sobre governança de código e individualização de ambiente deve estar na agenda dos conselhos executivos. “A pergunta central não é qual tecnologia usar, mas o que a empresa quer controlar. Quem controla dados, regras de negócio e integrações constrói um ativo. Quem depende integralmente de terceiros pode crescer rápido, mas com baixa autonomia estratégica”, analisa o CEO da Alphacode.

Para as empresas que desejam ingressar ou se consolidar no setor, a recomendação é seguir uma lógica de escopo progressivo, começando por operações de crédito lastreadas ou soluções específicas de pagamento antes de ampliar para um ecossistema completo. Em um ambiente onde o Banco Central reforça exigências de compliance, a reputação e a confiança tornaram-se ativos críticos, onde uma falha operacional pode comprometer definitivamente a marca. “Produto financeiro envolve confiança. Uma falha operacional ou um erro de liquidação não afeta apenas o caixa, afeta a marca”, reforça.

O Novo Ciclo das Fintechs

O amadurecimento do mercado brasileiro em 2026 marca a transição do entusiasmo para a responsabilidade. Estratégias focadas em rentabilidade, antecipação de recebíveis e crédito segmentado ganham protagonismo frente à aquisição agressiva de usuários. Para Franco, o diferencial competitivo agora é a disciplina: empresas que enxergarem a fintech como uma expansão estrutural do negócio terão vantagem, enquanto iniciativas oportunistas devem enfrentar ajustes dolorosos. “Estrutura vem antes de tecnologia. Quem entende isso constrói ativos. Quem ignora, corre risco desnecessário”, conclui.

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