Há uma pergunta que raramente aparece na fila do vestibular e eu acredito que deveria ser a pergunta central de todos que vão prestar o vestibular esse ano.
Como será a sua profissão quando você se formar?
Se essa pergunta não foi feita, há um risco real de se tomar uma decisão relevante com base em um retrato que já não corresponde ao presente, e certamente não corresponderá ao futuro próximo, pois como diz o Tiago Mattos*, “é construir o presente com ferramentas do passado”.
Basta observar o ritmo das transformações recentes. Em pouco mais de uma década, redes sociais surgiram e se consolidaram, novos formatos de trabalho foram criados e, mais recentemente, a inteligência artificial passou a integrar atividades que até então eram consideradas essencialmente humanas. Não se trata de uma mudança pontual, mas de uma reorganização contínua.
E esse intervalo, cerca de 10 anos, é próximo do tempo que separa quem inicia hoje um curso superior de quem estará no mercado consolidando carreira nos próximos ciclos.
A questão, portanto, deixa de ser abstrata: o que muda nos próximos cinco anos?
Algumas respostas já estão em curso.
No campo jurídico, ferramentas de inteligência artificial vêm sendo utilizadas para triagem e organização de processos, reduzindo significativamente o tempo dedicado a tarefas repetitivas (Victor é uma das inteligências usadas pelo STF). No setor de saúde, sistemas baseados em dados têm ampliado a capacidade de diagnóstico, com níveis de precisão cada vez mais elevados em áreas específicas. Órgãos reguladores internacionais já começam a incorporar essas tecnologias em seus protocolos (DeepMind é a empresa que consegue entregar esses diagnósticos em segundos).
Esses movimentos não indicam o fim de profissões tradicionais. Indicam outra coisa: uma mudança na forma de exercê-las. A diferença passa a estar menos no acúmulo de informação e mais na capacidade de interpretação, decisão e comunicação. Em outras palavras, não é a profissão que define o profissional, mas a forma como ele se posiciona dentro dela.
Relatórios recentes do Fórum Econômico Mundial apontam uma direção semelhante. Entre as habilidades mais valorizadas para os próximos anos estão pensamento analítico, criatividade, pensamento crítico, inteligência emocional, liderança e colaboração. São competências que dificilmente aparecem como critério central em processos seletivos educacionais tradicionais, mas que ganham peso crescente no mercado.
Esse desalinhamento evidencia um ponto importante: o modelo de formação ainda privilegia conhecimento estruturado, enquanto o ambiente de trabalho passa a exigir adaptação contínua. Nesse contexto, ganha relevância um conjunto de capacidades que não pertencem a uma área específica, mas atravessam todas elas. A habilidade de escutar com atenção real, de compreender contextos complexos, de questionar respostas prontas, inclusive quando produzidas por sistemas automatizados, e de tomar decisões em cenários incertos.
A inteligência artificial amplia a capacidade de processamento, mas não substitui a responsabilidade humana sobre escolhas e consequências. É nessa fronteira que se estabelece o espaço de diferenciação.
Ao mesmo tempo, a atual revolução tecnológica apresenta uma característica particular: a redução das barreiras de entrada. Se em ciclos anteriores o acesso a recursos físicos ou tecnológicos era um limitador, hoje a combinação entre conectividade e ferramentas digitais permite que iniciativas surjam com menor dependência de estruturas tradicionais.
Isso não elimina a complexidade do mercado. Pelo contrário, aumenta o nível de exigência. Começar tornou-se mais acessível; manter relevância, mais desafiador. Diante desse cenário, o desenvolvimento profissional tende a se apoiar em três eixos: domínio técnico, capacidade de adaptação e competências relacionais. Não se trata de substituir um pelo outro, mas de integrar.
A escolha de uma profissão continua sendo importante. Mas talvez já não seja suficiente.
O que se observa é uma transição: de trajetórias lineares para percursos mais dinâmicos, em que a construção de valor depende menos de estabilidade e mais de capacidade de resposta.
O vestibular, em grande medida, avalia o que se sabe no presente.
O mercado que se desenha começa a avaliar outra coisa: o que se faz quando o cenário muda.
E essa mudança já começou.
*Tiago Mattos é um renomado futurista, empreendedor, autor e educador brasileiro, reconhecido internacionalmente por pesquisas em inovação e cenários futuros. Palestrante nos 75 anos do Sinepe/RS, destacou a necessidade de a educação superar a lógica industrial e focar em habilidades humanas, preparando escolas para a transformação digital.

Palestrante, comunicador e entusiasta das gerações. Estuda recursos humanos e empreende nas áreas de Comunicação e Marketing. Criou a primeira agência de marketing do Brasil focada em comunicação geracional (Pós Z Company), sediada em Bragança Paulista, onde atualmente só contrata colaboradores da Geração Z e Geração Alpha. Dedica-se a construir um ecossistema de comunicação geracional para preparar jovens para o mercado de trabalho futuro e conscientizar as empresas para receberem esses jovens com sua nova agenda e visão de mundo.

