Especialista em psicotrauma analisa os impactos do assédio na saúde mental e nos projetos de vida profissional das vítimas

A pesquisa Trabalho Sem Assédio 2025, conduzida pela Think Eva em parceria com o LinkedIn, revela um dado alarmante: uma em cada seis mulheres que sofrem assédio sexual no ambiente de trabalho pede demissão após o episódio. No caso do assédio moral, a proporção é semelhante, confirmando o potencial devastador dessa forma de violência para interromper carreiras e corroer projetos profissionais de longo prazo.

Além da ruptura com a trajetória laboral, a pesquisa aponta que as consequências emocionais do assédio são extensas. Sintomas como ansiedade, depressão, desânimo, medo constante, baixa autoestima e isolamento aparecem de forma recorrente entre as vítimas. Tais manifestações configuram um quadro compatível com o trauma psicológico, no qual o ambiente de trabalho deixa de ser percebido como um espaço de desenvolvimento e passa a ser associado ao risco, à hostilidade e à vulnerabilidade.

De acordo com o levantamento, 19,1% das mulheres relataram ter alterado seus planos de carreira após sofrer um episódio de assédio, o que reforça a noção de que o problema ultrapassa o âmbito imediato e compromete projetos de vida e expectativas profissionais. Para muitas vítimas, o assédio resulta não apenas na perda de um emprego, mas no abandono de sonhos construídos ao longo de anos.

A psicóloga Bruna Côrtes, especialista em Psicotrauma e Terapia Sistêmica na Norte Saúde Mental, explica que o prejuízo do assédio se manifesta em três níveis: o individual, o coletivo e o institucional. “Há um prejuízo direto para a mulher que pede demissão, que perde uma carreira, uma posição, uma estabilidade financeira. Os impactos emocionais, morais e psicológicos são imensos”, afirma.

Segundo ela, o sofrimento também atinge as mulheres que permanecem na empresa, testemunhando a saída das colegas e convivendo com uma cultura organizacional marcada pela insegurança. “Essas mulheres vivem o que chamamos de trauma em curso. Elas não estão se recuperando de algo que passou, elas estão sendo retraumatizadas todos os dias, porque trabalham em uma cultura que não oferece segurança psicológica. O corpo e o sistema nervoso entram em modo de sobrevivência. Isso gera um nível de estresse altíssimo, e tudo nelas se volta para resistir, não para criar.”

Bruna enfatiza ainda que o impacto para as empresas é igualmente expressivo. “Uma instituição que perde uma colaboradora por assédio perde também produtividade, inovação e confiança. As pessoas que ficam passam a operar em insegurança, muito mais voltadas para sobreviver do que para produzir. É um custo altíssimo para a cultura organizacional.”

A especialista reforça que o assédio atua como uma forma de violência relacional, que mina a autoconfiança da vítima e desestrutura vínculos de confiança dentro da equipe. “Quando uma mulher abandona a carreira em decorrência do assédio, perde-se não apenas um talento, mas também um investimento social e educacional. Há um efeito dominó que repercute na representatividade feminina nos espaços de decisão e liderança, ampliando desigualdades já existentes no mercado de trabalho.”

A pesquisa também evidencia recortes importantes: mulheres negras e pardas relatam níveis mais elevados de ansiedade, medo e baixa autoestima após sofrer assédio, o que revela a sobreposição de violências e a necessidade de políticas organizacionais interseccionais. Esse dado reforça a importância de enxergar o assédio como uma questão estrutural, que reproduz e amplia desigualdades sociais históricas.

Nesse contexto, especialistas defendem que organizações invistam em estruturas eficazes de acolhimento, prevenção e responsabilização, capazes de reduzir a subnotificação e oferecer apoio real às vítimas. Para Bruna Côrtes, “a empresa que se compromete a enfrentar o assédio com seriedade não apenas protege suas colaboradoras, mas também preserva a saúde coletiva da organização e fortalece sua própria sustentabilidade no longo prazo.”

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