*Por: Cristina Mesquita.

A convivência social atravessa um período de evidente exposição. O discurso sobre identidade, visibilidade e protagonismo individual ocupa hoje um espaço central e, paradoxalmente, as relações equilibradas e os diálogos produtivos tornam-se cada vez mais difíceis de sustentar. Vive-se uma sensação constante de saturação, de disputas por atenção e de necessidade permanente de afirmação.

O comportamento social contemporâneo parece orientado menos pelo preparo e mais pela projeção. Constrói-se uma imagem, um discurso, uma persona pública que nem sempre encontra sustentação na prática, no conhecimento ou na experiência. O esforço de parecer ocupa o lugar do compromisso de ser, e essa inversão cobra um preço alto na convivência cotidiana.

Esse descompasso se reflete diretamente na comunicação. Observa-se uma fala marcada pela autopromoção, pela necessidade em ocupar espaço e pela dificuldade de escuta. Fala-se para aparecer, não para dialogar. Interrompe-se para se afirmar. Responde-se antes de compreender. O outro deixa de ser interlocutor e passa a ser plateia, o que fragiliza as relações e empobrece o convívio social.

Do ponto de vista comportamental, esse fenômeno revela uma carência de repertório relacional. Falta preparo emocional, social e comunicacional para sustentar a imagem que se deseja projetar. O corpo denuncia insegurança, a voz expõe ansiedade e o pensamento, muitas vezes, não acompanha o nível de exposição. A comunicação deixa de ser ponte e passa a funcionar como máscara.

A vida social, no entanto, não se sustenta em personagens. Relações saudáveis exigem coerência entre discurso e atitude, entre imagem e conduta. Quando essa coerência se rompe, surgem conflitos, mal-entendidos e um cansaço coletivo difícil de definir, mas fácil de sentir.

O diagnóstico social aponta para uma inversão preocupante: valoriza-se a exposição imediata e negligencia-se o preparo que sustenta qualquer presença pública ou social com conteúdo. Etiqueta, comportamento e boas maneiras passam a ser tratados como ornamentos ultrapassados, quando, na verdade, são instrumentos essenciais de civilidade.

Conviver bem exige mais do que visibilidade. Exige consciência do espaço que se ocupa, leitura do ambiente e responsabilidade sobre o impacto que se produz. Ao projetar o que não se sustenta na prática, fragilizamos a convivência e empobrecemos o convívio social.

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*Cristina Mesquita é jornalista, cerimonialista e graduada em Direito. Diretora de Comunicação da Associação Brasileira de Profissionais de Cerimonial (ABPC), é coautora do livro ‘Comunicação & Eventos’ e especialista em organização de eventos. Possui MBA em Gestão de Eventos pela ECA-USP. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/cristina-mesquita-jornalistaecrimonialista/

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