*Da série Cooperação em Alta – Por: Gianmarco Bisaglia e Luany Carvalho Moraes
Que o poeta era eu, cujas rimas eram compostas, na esperança de que tirasses essa máscara… que sempre me fez mal, mal que findou só depois do carnaval… (Mascarada – Zé Keti)
Um propósito na cabeça, muita vontade de trabalhar, uma rede de parceiros e muita conversa e negociação … foram estes os ingredientes que trouxeram de volta os desfiles carnavalescos de avenida em Atibaia! Contamos a história:
Apesar da longeva tradição carnavalesca, a prefeitura de Atibaia não promovia desfiles carnavalescos desde 2014; a descontinuidade de apoio público desmobilizou uma dezena de escolas e blocos, com evidente impacto na formação de novos sambistas e perda da “tradição” dos desfiles.
A reconstrução do carnaval inicia-se em 2022/23, com a formação da Comissão do Samba, por iniciativa do COMPOCAT – Conselho de Políticas Culturais de Atibaia, da qual eu, Gianmarco Bisaglia, tive a oportunidade de fazer parte junto a outros guerreiros como Silas, Izadora Tito, Jamil Scatena, Orlando Júnior, Henrique, Rosângela e muitos outros, um grupo que sensibilizou a então Secretária de Cultura Glória Diniz sobre a importância de retomada da mobilização das escolas de samba e desfiles de avenida.
Nosso ponto de partida foi a restruturação da UESA (União de Escolas de Semana de Atibaia), congregando as agremiações ativas – o esforço desta cruzada inicial foi premiado com a organização do desfile de 2024, ainda na administração do prefeito Emil Ono; a iniciativa ofertou um desfile não competitivo, iniciativa que revitalizou duas das mais tradicionais escolas de samba do município – a Mocidade da Vila e a Independência – e trouxe também a participação de dois blocos recém-constituídos, o Percussomos, e o Bloco 60+, este último organizado pela ONG Mater Dei e equipe do Centro de Convivência da Terceira Idade.

A boa articulação com a Secretaria de Cultura, turbinada com a boa resposta de público e visibilidade do desfile, permitiu costurar a implantação da Casa do Samba, espaço reformado e disponibilizado para a UESA, onde escolas e blocos poderiam realizar ensaios e eventos. Novos projetos apresentados à Secretaria de Cultura permitiram captação de recursos para aquisição de instrumentos e a implantação do Formasamba (com recursos da Lei Aldir Blanc), executado em 2025-2026, com finalidade de ofertar oficinas de percussão, passista, cavaco, gestão, marketing e captação de recursos, procurando apoiar as escolas na sua organização interna e melhor estrutura para sua sustentabilidade.
O desfile de carnaval de 2025 já ocorre sob a administração do prefeito Daniel Martini, cabendo à UESA papel importante de articular com o novo governo, em tempo recorde, o aporte financeiro necessário para montagem da infraestrutura dos desfiles. Animados pela perspectiva de continuidade dos desfiles, se organizaram velhas e novas agremiações, como a Fiel Atibaia, Acadêmicos do Cerejeiras, Bloco Malandragem e Bloco 60+, este já com gestão autônoma. O primeiro desfile competitivo contou com 4 escolas, e após onze anos sagrou-se vencedora o GRES Fiel Atibaia, com o tema relacionado a inclusão e miscigenação. A infraestrutura da avenida também abrigou o bloco do Zé Pereira, tradicional bloco-micareta da cidade, conduzida pelo carnavalesco Brandão, e mantida também a continuidade do carnaval de marchinhas da praça central, com bonecões e show do nosso querido amigo Altemar Dutra Jr.
No pós-carnaval de 2025 estabeleceu-se uma reorganização interna da UESA, com desafio de estabelecer melhor governança das agremiações filiadas e articular com a prefeitura os interesses e potenciais apoios financeiros para o carnaval 2026. Este esforço contou com a participação da toda diretoria, vereadores, secretários de governo – e apesar de algumas tradicionais desconfianças mútuas, arestas foram aparadas e logramos organizar o desfile de 2026, o Carnashow 26, que contou com financiamento do Fundo de Cultura com inédito repasse de verbas para as agremiações da cidade.

Participaram do desfile 2026 as escolas Fiel Atibaia, Cerejeiras, Mocidade da Vila e Independência, blocos 60+, Malandragem do Samba e o recém-criado Unidos do CTB, levando quase 800 carnavalescos à avenida em apresentação aplaudida por mais de 7000 pessoas. O recurso foi gerenciado pela UESA e permitiu aparelhar as escolas e blocos com instrumentos, fantasias e adereços, pagamento de artistas e logística de montagem dos desfiles, em exibição não competitiva. Os recursos públicos foram 100% aplicados no objeto e a prestação de contas demonstrou toda a transparência e capacidade operativa da UESA, contrariando o mito que as agremiações de carnaval não possuem capacidade de gestão para recebimento de verbas públicas!
A UESA e a Secretaria de Cultura fizeram avaliação muito positiva do carnaval, destacando o importante envolvimento do Secretário Samuel Quinto, que colocou em dados a importância do Carnashow 26 em sua dimensão de geração de renda, promoção do turismo, resgate de tradição cultura e cidadania, e impacto político com ampla participação popular, resultados que pesam perante o investimento público em infraestrutura, segurança pública e atendimento aos foliões visitates e residentes. O carnaval 2026 ainda marcou a criação de mais dois blocos, o Surreal Salvador e o Foliões do Samba.
Sem tempo de limpar os confetes e a purpurina, a UESA idealizou o I Simpósio Técnico do Carnaval de Atibaia, realizado no último dia 17 de maio, em parceria com a Secretaria de Cultura, viabilizado com recursos da Lei Aldir Banc (projeto Formasamba). O evento reuniu 60 lideranças do carnaval da região e teve como palestrantes Francislaine Calazans – Presidente da Escola de Samba Acadêmicos da Vila de Bragança Paulista/SP e Vice-presidente da Liga do Carnaval de Bragança Paulista/SP, Pedro Silva – Gestor Cultural e CEO do Projeto Carnaval Lab (Inovação, Formação e Sustentabilidade Carnavalesca), Alex Olivatto – Secretário de Cultura, Turismo e Eventos de Cordeirópolis/SP, e Renato Remondini (Tomate) – Presidente da Escola de Samba Dragões da Real e Presidente da Liga do Carnaval de São Paulo, que trouxeram sua imensa bagagem de carnaval e políticas públicas culturais, falando de sustentabilidade, gestão e organização das agremiações e captação de patrocínios. Ponto alto, a exibição do documentário “Para não Deixar o Samba Morrer”, da cineasta Karina Iliescu de Atibaia, contou a história passada e recente da tradição carnavalesca local.

Essa trajetória de quase quatro anos, iniciada com nosso ceticismo nas primeiras reuniões ao legado consistente apresentado nesta matéria, nos ensinam muito sobre desejo e realização. Objetividade ao alinhar objetivos, a flexibilidade nas articulações institucionais e o trabalho das muitas e incontáveis mãos de comunidades, blocos e escolas de samba, ONGs, músicos e artistas, classe política, empresas, consultores, patrocinadores, e principalmente vocês, foliões carnavalescos que sabem fazer e curtir o carnaval!
E vamos trabalhar, que fevereiro vem aí!
*O Escritório Fortes, iniciativa da ONG Mater Dei, atua justamente nesse campo: apoiando o Terceiro Setor, fortalecendo organizações e difundindo boas práticas sociais. A série “Fortes – Cooperação em Alta” nasce com esse propósito: dar visibilidade a experiências que inspiram e mostram que transformar realidades é possível quando se trabalha em conjunto.

Luany Moraes é estudante de Ciências Sociais na Unicamp. Desde 2022, atua como coordenadora de projetos e captação de recursos no Fortes – Escritório de Projetos da ONG Mater Dei, liderando a elaboração de propostas, a prospecção de parcerias e o acompanhamento de execução das iniciativas.

Empreendedor social, consultor empresarial, educador e músico, pai da Mariana e cidadão de Atibaia. Possui mais de 40 anos de trajetória profissional transitada entre o meio corporativo e o terceiro setor. Atualmente é dirigente da ONG Mater Dei de Atibaia-SP e violonista do grupo Eclético Musical.

