Quando eu era criança, e até a adolescência, havia algo curioso em casa. Minha mãe quase sempre mantinha a televisão ou o rádio ligados. Muitas vezes ela nem estava assistindo ao programa nem prestando atenção ao que era transmitido. Quando alguém perguntava o motivo, ela respondia com simplicidade:

— É só para fazer um barulhinho.

Durante muito tempo achei aquela resposta engraçada. Hoje percebo que ela talvez estivesse falando sobre algo que todos nós buscamos de alguma forma: companhia.

O curioso é que o mundo mudou, mas essa necessidade continua a mesma.

Se antes havia o rádio ligado na cozinha ou a televisão fazendo companhia na sala, hoje carregamos o “barulhinho” conosco. São notificações, mensagens, vídeos, podcasts, notícias e redes sociais que nos acompanham praticamente o tempo todo. Estamos sempre conectados a alguma informação, alguma opinião ou algum estímulo.

Talvez por isso o silêncio tenha se tornado algo tão raro.

Trago este tema agora, porque o meio do ano costuma ser uma época diferente. As crianças estão em férias, as rotinas mudam, a dinâmica do comércio fica diferente, as casas ficam mais cheias e os dias, muitas vezes, mais barulhentos. É um bom momento para refletirmos sobre a importância do silêncio em uma época que parece preencher todos os espaços disponíveis com algum tipo de som ou informação.

Mas vale uma pausa para refletir: quando foi a última vez que você ficou alguns minutos sem nenhuma distração, apenas com seus próprios pensamentos?

Muitas pessoas associam o silêncio à ausência. Eu gosto de pensar o contrário.

O silêncio é presença.

É nele que organizamos emoções, compreendemos experiências e damos significado ao que vivemos. É nele que percebemos sentimentos que estavam escondidos sob a correria e encontramos espaço para escutar aquilo que realmente importa.

É nesse silêncio que a leitura pode ocupar um lugar especial.

Um livro pode parecer silencioso para quem observa de fora. Mas quem lê sabe que existe muito movimento acontecendo ali dentro. Há personagens falando. Ideias provocando reflexões. Perguntas surgindo. Emoções sendo despertadas. O ‘barulhinho’ ainda estará lá, cumprindo o papel da companhia, porém uma companhia criada por você. Talvez uma das companhias mais curiosas que existam: silenciosa por fora e cheia de vida por dentro.

E, ainda, uma poesia, uma crônica, um artigo de jornal, uma letra de música ou um trecho da Bíblia também podem cumprir esse papel. Nem sempre precisamos de muitas páginas. Às vezes, algumas linhas são suficientes para provocar uma reflexão capaz de nos acompanhar durante dias.

Não são apenas as páginas lidas que nos transformam. São também os momentos em que paramos para pensar sobre elas. Ler nos apresenta novas ideias e o silêncio permite que elas encontrem lugar dentro de nós.

Em tempos que valorizam tanto a velocidade, talvez o silêncio seja uma das formas mais esquecidas de sabedoria e a leitura continue sendo um dos caminhos mais acessíveis para reencontrá-lo. Por isso, deixo um convite simples para as próximas semanas.

Procure encontrar cinco ou dez minutos de silêncio por dia. Talvez esse tempo já exista em suas orações, em sua meditação, em uma caminhada ou naquele café tomado sem pressa. Experimente acrescentar uma leitura a esse momento. Não precisa ser um livro inteiro. Pode ser uma página apenas, uma notícia, uma passagem inspiradora ou qualquer texto que converse com você.

Mais do que ler para adquirir conhecimento, permita-se ler para escutar. Escutar as palavras, escutar os pensamentos que elas despertam e, principalmente, escutar a si mesmo.

Isto porque não é apenas o que lemos que nos transforma, é também o tempo que damos às ideias para que elas falem dentro de nós.

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