Relatório das Nações Unidas indica que o sistema elétrico nacional consome 191% mais água que a média global, pressionando operadores por novas normas de eficiência e gestão ambiental
O avanço da inteligência artificial (IA) e a expansão acelerada de data centers trouxeram para o centro do debate um custo ambiental menos visível: a pegada hídrica da tecnologia. No Brasil, o tema ganha gravidade devido à configuração do sistema produtivo de energia. Estudo do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) revela que a matriz elétrica brasileira possui uma intensidade de consumo de água 191% superior à média mundial — reflexo da alta dependência da geração hidrelétrica, cuja evaporação em reservatórios consome volumes significativos de recursos hídricos.
Em escala global, os centros de processamento de dados demandaram cerca de 448 TWh de energia, com projeção de atingir 945 TWh. A expansão dessa infraestrutura pode elevar o consumo anual indireto e direto de água do setor para 9,3 trilhões de litros. A publicação da ONU alerta que mensurar a sustentabilidade da IA focando exclusivamente em emissões de carbono gera uma distorção, ignorando o desgaste sobre os mananciais.
Normalização técnica e gestão de infraestrutura
Diante do apetite energético e hídrico dos novos complexos tecnológicos, a Associação Brasileira de Infraestrutura da Qualidade (ABRIQ) defende a implementação rigorosa de normas internacionais de conformidade — como a ISO 14001 (Gestão Ambiental) e a ISO 50001 (Gestão de Energia) — para auditar e conter os impactos da atividade.
Para Alexandre Xavier, vice-presidente de ESG da ABRIQ, a atração de investimentos em data centers precisa estar condicionada a métricas auditáveis de eficiência.
“A expansão da inteligência artificial precisa ser acompanhada por uma visão mais ampla de sustentabilidade. Além das emissões de carbono, é fundamental estabelecer parâmetros que permitam mensurar o uso da água e avaliar a eficiência dos sistemas. A infraestrutura da qualidade, por meio de certificações e metrologia, garante que o país cresça sem comprometer seus recursos naturais”, analisa Xavier.
A aplicação dessas diretrizes técnicas permite que operadores monitorem a evaporação e o resfriamento de servidores em tempo real, estabelecendo metas de reaproveitamento de água e reduzindo custos operacionais de longo prazo.
