Instabilidade climática, custos mais altos e pressão por sustentabilidade levam empresas do agro e da indústria de alimentos a investir em soluções tecnológicas para reduzir riscos e garantir produtividade

A intensificação de eventos climáticos extremos, somada à alta no custo de insumos e à necessidade de cadeias produtivas mais sustentáveis, tem provocado uma mudança estrutural na forma como o agronegócio e a indústria de alimentos operam. Em vez de iniciativas pontuais, empresas passaram a adotar tecnologias capazes de reduzir a exposição ao risco climático, estabilizar resultados e preservar margens em um ambiente cada vez mais instável.

Dados consolidados por organizações setoriais e governamentais indicam que eventos adversos causaram prejuízos estimados em R$ 287 bilhões à agropecuária brasileira entre 2013 e 2022, com perdas em mais de 6,8 milhões de hectares de lavouras. Levantamento do Ministério da Agricultura e Pecuária aponta ainda que até 86% das áreas cultivadas no país estão sujeitas a impactos financeiros relacionados ao clima.

Tecnologia ganha espaço no centro das decisões

Nesse cenário, agtechs e foodtechs deixaram de ocupar um papel secundário e passaram a integrar estratégias centrais do setor. Soluções voltadas à regeneração do solo, ao uso de insumos biológicos, à eficiência hídrica e à biotecnologia aplicada à produção de alimentos vêm sendo adotadas como resposta direta à imprevisibilidade das safras.

Para Humberto Matsuda, membro do Comitê de Investimentos da Kamay Ventures, a crise climática alterou a lógica econômica do agro. Segundo ele, o clima deixou de ser apenas uma variável externa e passou a influenciar diretamente o cálculo de custos e riscos das operações.

O especialista avalia que tecnologias que combinam ciência e soluções baseadas na natureza têm ganhado espaço por atuar em gargalos estruturais do setor. Entre os benefícios apontados estão a melhora na retenção de água do solo, a redução da dependência de fertilizantes e a menor exposição à volatilidade de preços.

Indústria de alimentos também revisa estratégias

Apesar de uma retração global de investimentos em alguns segmentos de agrifood tech, categorias relacionadas à tecnologia climática seguem atraindo capital. No Brasil, relatórios setoriais indicam que R$ 627,2 milhões foram investidos em agtechs e foodtechs no primeiro semestre de 2025, com avanço de estruturas como incubadoras e aceleradoras.

A indústria de alimentos enfrenta pressão semelhante. Além dos efeitos indiretos do clima sobre a oferta de matérias-primas, cresce a demanda por processos produtivos mais eficientes e por produtos com menor impacto ambiental. A biotecnologia aparece como uma das principais apostas para reduzir desperdícios, encurtar cadeias de suprimento e tornar custos mais previsíveis.

Na avaliação de Matsuda, o país se tornou um mercado estratégico para desenvolvimento e validação dessas tecnologias, mas ainda enfrenta desafios estruturais como degradação do solo, eventos climáticos extremos e dependência de insumos importados. Ele destaca que o setor tem adotado uma postura mais pragmática, priorizando inovação como ferramenta de eficiência e não apenas como sinalização ambiental.

Evento debate tendências do setor

A agenda de inovação climática deve ganhar espaço em debates estratégicos do mercado. O tema será abordado no painel “Agtech & Foodtech na Era do Clima – Eficiência, Impacto e Negócios”, que integra a programação do Kamay Code, evento da Kamay Ventures marcado para 18 de março, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O encontro reunirá investidores, startups e lideranças para discutir soluções já aplicadas e os próximos passos para consolidar tecnologias no setor.

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