Índice de fevereiro mostra estabilidade, mas revela piora na percepção da situação financeira atual e queda na intenção de compra de carros, imóveis e eletrodomésticos
A confiança do consumidor brasileiro permaneceu em um estado de neutralidade em fevereiro, mas com sinais de alerta sob a superfície. O Índice Nacional de Confiança (INC), medido pela PiniOn para a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), marcou 100 pontos, mantendo-se estável em relação a janeiro e com um leve avanço de 1,0% na comparação com o mesmo mês de 2025. O resultado, no entanto, mascara uma cautela crescente entre as famílias, que relatam uma piora na sua situação financeira atual e, como consequência, menor disposição para compras de maior valor.
O índice, que considera 100 pontos como um patamar de neutralidade (acima é otimismo, abaixo é pessimismo), foi elaborado a partir de uma sondagem com 1.679 famílias em todo o país. A análise dos dados revela um cenário heterogêneo. Regionalmente, apenas o Sudeste registrou aumento da confiança. No recorte por classe socioeconômica, a confiança cresceu entre as famílias da classe C, mas recuou nas classes AB e DE. Na divisão por gênero, os homens se mostraram mais confiantes, enquanto a confiança das mulheres diminuiu.
O ponto central da pesquisa é a desconexão entre o presente e o futuro. Enquanto as expectativas para a renda e o emprego nos próximos meses apresentaram uma melhora moderada, a percepção sobre a situação financeira atual piorou. Essa avaliação mais negativa do momento presente impactou diretamente o comportamento de consumo.
Segundo a ACSP, essa dinâmica resultou em uma menor disposição para a compra de itens de maior valor, como carros e imóveis, e também de bens duráveis, como geladeiras e fogões. A propensão a realizar investimentos também caiu, indicando que as famílias estão mais focadas em equilibrar as contas do dia a dia.

Para o economista da ACSP, Ulisses Ruiz de Gamboa, o resultado reflete um “cabo de guerra” na economia familiar. De um lado, fatores positivos como a geração de emprego, aumentos de renda e programas de transferência governamental sustentam o consumo. Do outro, o otimismo é freado por dois grandes obstáculos.
“Os prováveis efeitos positivos dessa dinâmica do mercado de trabalho sobre a Confiança do Consumidor parecem estar sendo compensados pelos efeitos negativos do elevado alto grau de endividamento das famílias e da desaceleração econômica provocada pelos juros elevados“, analisa o economista. Em síntese, mesmo com alguma esperança no futuro, o peso das dívidas e o custo do crédito no presente obrigam o consumidor a pisar no freio.

