Por Nathália Meireles

Um dos maiores desafios do profissional de comunicação hoje é a busca por alternativas capazes de captar a atenção do público. As estratégias mais comuns são: uso de gatilhos no começo do vídeo para prender o usuário, surfar na onda do hype e a promessa de informações exclusivas. Esses são os métodos mais utilizados por profissionais da área e influenciadores. Nada que é feito ou dito nesses conteúdos é inocente; tudo é estrategicamente focado no engajamento.

Recentemente, assisti a um conteúdo sobre influenciadores que exageram nos ganchos iniciais de seus vídeos. Eles pesam a mão na hora de reter a atenção dos usuários, apelando ao sensacionalismo e ocultando informações sobre ocorrido. Tudo isso calculado: o objetivo final é manipular a reação e o comentário do público na postagem.

Como apontei em artigos anteriores, a raiva é o sentimento que mais gera engajamento nas redes sociais. De acordo com um estudo conduzido por universidades americanas como Yale e Stanford, a arquitetura das redes sociais modernas transformou a indignação em uma moeda de troca valiosa.

A pesquisa, que analisou milhões de postagens, revelou que publicações que incitam o ódio ou expõem um caso de indignação recebem, em média, o dobro de compartilhamentos em comparação a conteúdos informativos ou educacionais. Esse fenômeno desenvolve um ciclo de “recompensa algorítmica”: como o sentimento de raiva gera reações rápidas e debates calorosos, as plataformas priorizam esse tipo de conteúdo para reter o usuário por mais tempo.

Para o marketing contemporâneo, isso representa um desafio ético e cognitivo: ao estimularmos a revolta para garantir o engajamento, estamos alimentando a superficialidade mental que Nicholas Carr descreveu ainda em 2011. Para o autor, a tecnologia provoca mudanças neuroplásticas em nosso cérebro, tornando-nos seres mais superficiais e com menor capacidade de concentração.

Estamos passando por um momento delicado na neurociência em relação ao uso excessivo das redes sociais e inteligência artificial. Devido à utilização descontrolada e à dependência excessiva das máquinas, os níveis de concentração da população estão caindo drasticamente. Muitos indivíduos já não obtêm êxito em tarefas simples, como dirigir ou ler uma página de um livro. Perdem a linha de raciocínio durante uma conversa, esquecem sobre o que estão lendo assim que são questionados e desistem facilmente de uma atividade quando surgem os primeiros obstáculos. Sem perceber, estamos tomados pela “preguiça de pensar”.

Ao longo dos anos, a internet vem nos treinando para a “leitura dinâmica” – o escaneamento de textos. Podemos observar isso na estrutura das legendas, nos fragmentos de textos sobrepostos a imagens, carrosséis informativos, vídeos ultracurtos, visuais de alto contraste e ganchos instantâneos. Como o nosso cérebro lida com essa mudança? Com o que estudiosos chamam de “Ciclo do Cérebro Escaneador”. Basicamente, o órgão se adapta e busca eficiência (neuroplasticidade). Ele aprende que não precisa mais de concentração profunda; especializa-se em filtrar ruídos e descartar o que não é imediato. Enquanto o marketing bombardeia o usuário com estímulos, o cérebro se torna um agente de mudança neurobiológica.

A grande questão sobre a qual precisamos refletir é a terceirização do ato de pensar. De forma automática, estamos delegando nossa atenção aos algoritmos e permitindo que eles decidam o que devemos ou não consumir. Como consequência, perdemos o que há de mais humano e o que mais nos diferencia da máquina: a capacidade de contemplar, de analisar com senso crítico e de conectar ideias complexas ao cotidiano.

O “Cérebro Escaneador” pode até ser uma adaptação eficiente para a sobrevivência no mundo digital, onde a explosão de informações surgem a cada segundo, mas, na prática, é uma prisão fria e solitária do pensamento criativo. Assim como figuras históricas foram silenciadas em prisões escuras, a nossa criatividade está sendo confinada em uma cela feita de algoritmos.

Chegou a hora de recuperar a autonomia intelectual cultivada por tantos anos através da arte, da escrita, do teatro, do cinema e de outros meios de manifestação humana. Precisamos aprender a desligar o “piloto automático” dos conteúdos hiperpersonalizados e levantar a cabeça, enxergando além da tela preta do celular. Se a tecnologia molda o cérebro, cabe a nós decidir de que forma vamos usufruir das suas ferramentas e metodologias, antes que o nosso pensamento se torne apenas um reflexo do que o algoritmo nos manda.

Nathália Meireles é especialista em Marketing Digital, com foco em conteúdo direcionado para as áreas de Transformação Digital, Inovação e Marketing. Graduada pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), cursa pós-graduação em Marketing Digital e Transformações Empresariais na Universidade Cruzeiro do Sul. Acredita que a escrita tem o propósito de estimular a geração de insights valiosos e contribuir para a sociedade. Além disso, é a mente por trás do blog Dig. Insights Hub, em que atua como criadora e escritora.

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