Sondagem nacional da Abrasel mostra que 58% dos estabelecimentos preveem desempenho superior ao inverno passado; inadimplência fiscal e margens estreitas ainda pressionam o caixa do setor
O setor de alimentação fora de casa inicia o segundo semestre com fortes indicadores de aquecimento na demanda. Uma pesquisa conjuntural inédita realizada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) revela que 54% dos proprietários de bares e restaurantes no país projetam uma expansão nas vendas durante o período de férias escolares de julho, em comparação com meses convencionais de operação. Desse ecossistema de otimismo, 44% dos entrevistados estimam um crescimento real no faturamento de até 20%, enquanto uma parcela de 10% aguarda um salto ainda maior na receita líquida.
O comparativo com o mesmo período do ano anterior reforça a tendência de aceleração do mercado de consumo: para 58% dos estabelecimentos, o faturamento deste inverno superará o de julho passado. De acordo com o levantamento, o recesso escolar é classificado como estratégico para o desempenho do negócio por 49% dos empresários, impulsionado pela mudança na rotina das famílias (43%) e pela atração de turistas (49%).
Contudo, a dinâmica de distribuição dessa receita não é uniforme. “Julho redistribui o consumo pelo país. Enquanto algumas cidades sentem a queda no movimento porque parte da população viaja, destinos turísticos vivem um dos períodos mais intensos do ano. Cidades associadas ao inverno recebem mais visitantes e transformam essa sazonalidade em uma oportunidade para reforçar o caixa e compensar os meses de menor movimento”, pontua Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel.
Copa do Mundo e recorde no turismo internacional alavancam o setor
A sazonalidade tradicional de julho ganhou um catalisador macroeconômico de peso com a realização da Copa do Mundo de 2026. A transmissão dos jogos e o avanço da seleção brasileira têm mantido o fluxo de clientes em alta, beneficiando diretamente os bares. Essa conjuntura é vitaminada pelo desempenho histórico do turismo receptivo internacional no Brasil. Indicadores consolidados do Ministério do Turismo apontam que os viajantes estrangeiros injetaram R$ 25 bilhões na economia nacional entre janeiro e maio — uma cifra recorde que representa um crescimento de 11% frente ao mesmo intervalo de 2025.
Esse ambiente de alta circulação de capital encontra um setor em fase de recuperação técnica. Os dados da Abrasel mostram que o mês de maio encerrou com 39% das empresas operando com lucro líquido e 41% em patamar de equilíbrio financeiro, puxados principalmente pela forte movimentação comercial do Dia das Mães.
Custos elevados e endividamento tributário exigem cautela
Apesar do cenário de salões cheios, a retaguarda financeira das micro e pequenas empresas do setor de foodservice ainda demanda atenção rigorosa de gestão. O estudo revela que a capacidade de repasse inflacionário continua severamente limitada: apenas 8% dos empresários conseguiram reajustar seus cardápios acima do índice oficial de inflação nos últimos 12 meses, enquanto 35% operaram com preços totalmente congelados para não perder volume de vendas.
Essa compressão contínua das margens de lucro reflete-se na taxa de inadimplência estrutural do segmento. Atualmente, 37% dos estabelecimentos do país possuem alguma obrigação financeira em atraso. Entre as empresas endividadas, o principal gargalo concentra-se nos passivos fiscais: 75% registram débitos em aberto com impostos de competência federal, e 44% enfrentam pendências com tributos estaduais. O diagnóstico final da sondagem indica que, embora a Copa e as férias garantam faturamento imediato, a saúde financeira de longo prazo das empresas dependerá da sua capacidade de absorver essa demanda sem desorganizar o fluxo de caixa.
