No artigo anterior, afirmamos a necessidade de medir resultados, demonstrar impacto e dar visibilidade ao que já vem sendo construído nos territórios como um ponto decisivo para a consolidação da Economia Criativa e Solidária. Indicadores mostram onde estamos, mas é com formação e capacitação que determinamos para onde podemos ir e, assim, transformamos realidades. Se quisermos avançar das iniciativas bem-intencionadas para um modelo econômico consistente, sustentável e permanente, precisamos enfrentar um tema que ainda é tratado com certa superficialidade: a qualificação das pessoas que sustentam esse ecossistema. Preparar as pessoas é o passo adiante para o sucesso, muito além da também necessária boa vontade.
Existe um traço recorrente na Economia Criativa e Solidária que precisa ser encarado com honestidade: a valorização quase exclusiva do engajamento, da motivação e da identidade coletiva como elementos fundamentais, porém não suficientes. Empreendimentos solidários, cooperativas, coletivos culturais e redes produtivas exigem competências técnicas claras:
- Gestão financeira;
- Organização produtiva;
- Planejamento estratégico;
- Comercialização;
- Comunicação.
Sem esse conjunto de habilidades, o que se vê, com frequência, é a sobrecarga de poucos, a desorganização de processos e, em muitos casos, a descontinuidade de iniciativas promissoras. É preciso dizer com todas as letras: muito além da boa intenção, a formação qualificada em diversos aspectos é que pode sustentar o empreendimento.
Formação técnica e formação humana: um equilíbrio necessário
Ao tratar de capacitação, é comum reduzir o debate à dimensão técnica. No entanto, a Economia Criativa e Solidária exige um equilíbrio mais sofisticado. De um lado, é indispensável desenvolver competências objetivas de gestão e operação; de outro, é igualmente essencial fortalecer capacidades humanas que são próprias desse modelo: cooperação, tomada de decisão coletiva, resolução de conflitos, corresponsabilidade e compromisso com o território. Não se trata apenas de ensinar a gerir um negócio, mas de formar sujeitos capazes de atuar em uma lógica diferente da competição individual. Sem essa base, o risco é claro: importar práticas do mercado tradicional e, aos poucos, descaracterizar o próprio modelo.
O papel das instituições: formar para além do discurso
Se a formação é estratégica, ela não pode ficar restrita à iniciativa individual. Universidades, centros de formação, poder público e organizações da sociedade civil têm responsabilidade direta nesse processo. É preciso avançar em programas contínuos de capacitação, formação contextualizada com a realidade local, integração entre teoria e prática e a aproximação entre academia e territórios produtivos. Além de estudar a Economia Criativa e Solidária, é necessário formar para atuar nela.
Tratar a formação como elemento estruturante é reconhecê-la como fundamental política pública. Isso significa prever recursos específicos, incluir formação em programas e editais, estruturar parcerias institucionais e garantir a continuidade das ações. Capacitação não pode ser evento, precisa ser processo. Quando há investimento consistente em formação, o resultado aparece rapidamente: fortes projetos estruturados, qualidade de gestão e alta capacidade de crescimento.
Formar para a autonomia
O processo de capacitação deve criar independência técnica e conhecimento apropriado pelos participantes. O grupo cresce com autonomia em relação à cooperação com consultores e instituições externas. A formação deve ter um objetivo claro: gerar autonomia para que os próprios sujeitos sejam capazes de planejar, gerir, decidir e se adaptar. Com autonomia, há autogestão e, consequentemente, há economia solidária.
Conclui-se que, com gente preparada, há desenvolvimento sustentável. A Economia Criativa e Solidária já demonstrou seu potencial. Para se consolidar como estratégia real de desenvolvimento, precisa investir de forma consistente na formação das pessoas. Territórios se desenvolvem com gente preparada; é exatamente isso que transforma iniciativas em desenvolvimento permanente.

Bragatto é graduado em Gestão Estratégica Empresarial e possui ampla experiência no setor financeiro pelo Banco do Brasil. Como Gestor Público em São Carlos-SP, foi Secretário de Trabalho, Emprego e Renda, destacando-se no desenvolvimento da Economia Solidária e Criativa, além de sua participação no Fórum Social Mundial como membro do Fórum Paulista e da Rede Nacional de Gestores em Economia Solidária.
Ocupou a presidência da Progresso e Habitação de São Carlos S/A (PROHAB), implantou a Secretaria de Administração Regional e exerceu quatro mandatos como vereador. Atualmente, é Secretário Adjunto de Relações Legislativas e vice-presidente da UVESP.
Com forte atuação em temas como Valorização da Vida, Inteligência Emocional, Saúde Mental e Desenvolvimento Humano, é um palestrante requisitado por empresas, universidades e setores públicos. Para Bragatto, compartilhar gera evolução, e cuidar de pessoas promove desenvolvimento, melhores resultados e satisfação—todos por um mundo melhor.

