As organizações sem fins lucrativos e movimentos sociais se encontram num momento de desafiadoras reflexões; se por um lado evoluímos nos últimos anos no aperfeiçoamento de políticas públicas e nos arranjos jurídicos que regulam as relações entre estado e sociedade civil organizada, na outra mão o terceiro setor também sofre com as mudanças disruptivas que vem ocorrendo na sociedade.
Nos meus 50 anos em atividade, sempre enxerguei o terceiro setor como uma bolha de consciência e atuação ética, que congrega os esforços de profissionais e voluntários procurando tornar nosso mundo um espaço melhor para criar, viver e exercer nossa humanidade. Mas por mais que o terceiro setor cresça e melhore sua atuação, o modelo de desenvolvimento econômico e a ação de “estados e mercados” geram cada vez mais desigualdade social e degradação ambiental.
A tecnologia, ao contrário do que supostamente deveria ser, traz cada vez menos qualidade de vida, contribuindo para alienar, desinformar e condicionar comportamentos, afastando as pessoas da compreensão de si mesmas, e de seu papel social e político, como sujeitos de nossos direitos que somos. Assim temos, de forma geral, uma sociedade mais pobre, funcionalmente incapaz, coletivamente inerte, e mentalmente menos saudável… o pesadelo de George Orwell e seu Big Brother é real. Temos um estado que arrecada cada vez mais e distribui cada vez menos; um setor produtivo focado na maximização de lucros, e uma concentração cada vez mais insana de renda e poder, com menos democracia, transparência e diálogo.
Neste cenário, o estado continua precisando do terceiro setor para suprir as suas deficiências técnicas e operacionais – há maior inversão de recursos estatais (e de capital privado) para políticas públicas na saúde, ação social, cultura, educação, causa ambiental, esporte, etc. Mas o acesso e operação destes recursos pelas ONGs vem com um alto preço – a incompetência operacional de governos em todos os níveis, o espírito policialesco de comando e controle nas relações de parceria, e a corrupção e os vieses ideológicos que contaminam os propósitos originais de atender às demandas da sociedade.

Neste cenário, as organizações da sociedade civil que desejam estar “no jogo” vão se profissionalizando cada vez, infelizmente nas atividades meio – precisamos mais de contadores, advogados, profissionais de marketing e TI, para suprir a difícil tarefa de captar recursos e prestar contas, e cada vez menos empregamos educadores, terapeutas, cuidadores, voluntário, artistas, que de fato fazem a linha de frente de intervenção e atendimento.
Como em todo contexto que aparece dinheiro, também surgem os atravessadores, que cobram seu dízimo para intermediar verbas de governos e empresas, ou os gurus, que tomam uma parcela dos recursos existentes para investir na “melhoria de gestão” das ONGs (capital que deixa de estar alocado para ação direta junto aos públicos atendidos) – assim, quanto mais crescem e ficam robustas financeiramente, as organizações “precisam” emular modelos de gestão empresarial, perdendo sua essência de voluntarismo e senso de missão. Na saga de captar recursos e prestar contas, corremos o risco de sermos meros operadores de projetos, talvez insuficiente para promovermos a transformação social que nos define enquanto segmento.
Portanto, temos um enclave desafiador – as organizações e movimentos sociais podem permanecer na borda da sociedade, militando por direitos e procurando mitigar os problemas socioambientais gerados por séculos de produção de desigualdade e injustiça, OU vamos alinhar com o sistema e estarmos a reboque do que os governos e o capital esperam que a gente seja: a filantropia chapa branca, que cada vez mais enxuga gelo e alimenta páginas de Instagram.
As ONGs precisam voltar às raízes, refletir sobre sua missão e razão de ser, o quanto desejam ou conseguem impactar as comunidades onde se inserem. Precisamos reaprender a cativar e envolver voluntários que realmente coloquem a mão na massa e percebam a grandeza do que fazemos, resgatando o bem-estar social, transformando vidas e curando a sociedade. Costumo dizer que somos semeadores e não coletores – nós educamos, curamos, cuidamos: isso custa dinheiro e raramente gera resultado imediato ou conquista reconhecimento da grande massa, mais preocupada com coisas imediatas que distraem a nossa existência.
Tirar uma pessoa da condição de morador de rua, dar dignidade para a idosa em isolamento e pobreza, encaminhar jovens para uma profissão, curar a alma de alguém sem propósito de vida, produzir arte com sucata, reduzir a violência na escola, denunciar abuso sexual, recuperar uma floresta, tirar as pessoas da alienação permanente e dar sentido a suas vidas, transformando zumbis sociais em agentes de transformação. Isso é o que fazemos! O terceiro setor só tem sentido se estiver plenamente engajado em sua missão de forma ética e independente, procurando tornar o planeta um espaço mais saudável de convívio e realização.

Empreendedor social, consultor empresarial, educador e músico, pai da Mariana e cidadão de Atibaia. Possui mais de 40 anos de trajetória profissional transitada entre o meio corporativo e o terceiro setor. Atualmente é dirigente da ONG Mater Dei de Atibaia-SP e violonista do grupo Eclético Musical.
