No futebol, como na vida e nos negócios, palavras têm peso. Às vezes, um comentário impensado revela mais sobre a sociedade do que sobre o próprio momento em que foi dito. Foi exatamente isso que vimos recentemente após a eliminação do Red Bull Bragantino nas quartas de final do Campeonato Paulista.
Na entrevista pós-jogo contra o São Paulo, o zagueiro Gustavo Marques criticou a arbitragem e afirmou que uma mulher não deveria apitar uma partida decisiva, referindo-se à árbitra Daiane Muniz. A repercussão foi imediata. O Red Bull Bragantino reagiu com nota oficial e posteriormente uma medida disciplinar clara: o jogador não será relacionado para a próxima partida e 50% do seu próximo salário será destinado a uma instituição social.
E é aqui que a história ganha um significado maior.
O valor será destinado à ONG Rendar, de Bragança Paulista, uma organização que há mais de uma década faz um trabalho silencioso, profundo e transformador na vida de muitas mulheres.
Fundada em 2014, a ONG Rendar se tornou referência no apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente vítimas de violência doméstica e abuso. No espaço localizado no bairro Santa Lúcia, elas encontram muito mais do que assistência: encontram acolhimento.
A instituição oferece apoio emocional, orientação jurídica e psicológica, além de atividades que ajudam na reconstrução da autoestima e da autonomia. Oficinas de artesanato que geram renda, sessões de arteterapia, rodas de conversa, cultivo de horta e workshops de capacitação fazem parte de um ambiente pensado para transformar dor em recomeço.
A presidente da instituição, Nilva Zeitoun, costuma resumir bem o espírito do projeto ao dizer que, quando uma mulher entra naquele espaço, precisa sentir que chegou a um lugar de acolhimento. E isso não é discurso: o trabalho é contínuo, todos os dias, com uma rede de voluntários que acredita na transformação social a partir do cuidado.
No mundo corporativo, falamos muito sobre propósito, ESG, responsabilidade social e impacto positivo. Muitas vezes, essas palavras ficam restritas a apresentações ou relatórios. Projetos como a Rendar mostram como o impacto acontece de verdade: no contato direto com quem precisa recomeçar.
O episódio envolvendo o jogador e a árbitra obviamente levanta um debate importante sobre respeito, igualdade e o espaço das mulheres em todas as áreas, inclusive no esporte. Mas também abre uma reflexão interessante: até mesmo um erro pode gerar algo positivo quando se transforma em aprendizado e apoio a quem está fazendo a diferença.
Se existe algo que a Rendar nos ensina é que reconstruir vidas exige constância, empatia e comunidade. E isso não acontece apenas com grandes investimentos, mas também com pequenas atitudes, doações, voluntariado ou simplesmente dar visibilidade a quem está trabalhando pelo bem coletivo.
No fim das contas, talvez essa história não seja sobre uma punição no futebol.
Talvez seja sobre como uma cidade, uma ONG e uma rede de pessoas comprometidas podem transformar um episódio negativo em algo que fortalece quem mais precisa.
E isso, convenhamos, é uma vitória muito maior do que qualquer resultado dentro de campo.
Quer saber mais sobre a Rendar, acesse: https://ongrendar.org/

JP Fehér é jornalista com mais de 17 anos de experiência na comunicação pública e privada. Especializado em Comunicação Pública Governamental pela USP, atuou em campanhas eleitorais e assessorou administrações municipais, coordenando estratégias de comunicação e fortalecendo o diálogo institucional. Também esteve à frente da comunicação de instituições do setor da saúde, promovendo iniciativas para aprimorar a comunicação interna e externa. Em sua trajetória, liderou equipes, desenvolveu estratégias institucionais e atuou na produção de projetos culturais via leis de incentivo em São Paulo e Minas Gerais.

