A entrada em vigor do novo regime fiscal, baseada na Emenda Constitucional 132/2023, somada ao endurecimento das diretrizes de saúde ocupacional da NR 1, impõe às empresas brasileiras a necessidade de revisão estratégica de custos e processos para preservar a continuidade dos negócios
O ambiente de negócios no Brasil inicia 2026 sob o impacto da maior reestruturação tributária das últimas três décadas. A implementação gradual da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) — que substituem tributos históricos como PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS — altera não apenas a carga tributária nominal, mas a lógica de formação de preços e a gestão de créditos nas cadeias produtivas. Segundo dados do Insper, o contencioso tributário nacional ultrapassa 75% do PIB, um volume que evidencia a ineficiência do sistema anterior e que o Ministério da Fazenda projeta reduzir drasticamente com a simplificação do novo modelo.
Para Marcus Marques, especialista em gestão de PMEs e fundador do Grupo Acelerador, o maior risco para o setor produtivo não é o imposto em si, mas a inércia estratégica. “O empresário que deixar para entender a reforma quando ela já estiver impactando o caixa vai correr atrás do prejuízo. 2026 não é apenas um ano de mudança de siglas, é o momento de revisar enquadramentos, simular cenários e organizar processos internos que antes eram negligenciados”, alerta Marques.
Saúde ocupacional: do cumprimento burocrático à proteção do patrimônio
Paralelamente à agenda fiscal, a atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR 1) eleva o rigor sobre a segurança no trabalho ao consolidar a obrigatoriedade do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A mudança retira a saúde ocupacional do campo da mera formalidade documental e a coloca como um pilar de governança. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho indicam que a recorrência de acidentes laborais mantém o Brasil sob vigilância permanente, o que resulta em passivos trabalhistas que podem paralisar operações.
Na avaliação de Marques, a integração entre as áreas contábil, jurídica e operacional deixa de ser uma recomendação para se tornar uma prática de sobrevivência. “Gestão de risco não pode ser vista como uma tarefa burocrática para evitar multas. Uma autuação pesada ou uma ação trabalhista mal gerida tem o potencial de comprometer o resultado de anos de trabalho. Quando a empresa organiza seus controles, ela não está apenas cumprindo a lei, está protegendo sua margem e o seu patrimônio”, explica o empresário.
O fim do amadorismo e a seleção natural no mercado
As pequenas e médias empresas (PMEs), que respondem por cerca de 30% do PIB e mais de 55% dos empregos formais, são as que enfrentam o maior desafio de adaptação por operarem com estruturas mais enxutas. O novo cenário regulatório atua como um catalisador para a profissionalização do empreendedorismo no país. Para o mentor de negócios, a complexidade de 2026 decreta o fim da “era do improviso”, forçando uma seleção natural entre organizações que possuem método e aquelas que operam sem previsibilidade.
Ao trazer temas antes restritos a grandes corporações — como simulações tributárias de longo prazo e indicadores de desempenho integrados — para a realidade dos pequenos negócios, o mercado exige uma postura mais analítica dos fundadores. “Quem tratar 2026 apenas como mais um ano fiscal comum vai perder competitividade rapidamente. O empresário precisa enxergar essas mudanças como uma oportunidade única de ‘arrumar a casa’ e ganhar eficiência estrutural. O mercado brasileiro sempre foi resiliente, mas o novo ciclo exige que ele seja, acima de tudo, previsível e profissional”, conclui Marques.

