Debate nacional promovido por SEBRAE e ABCRED alerta para o peso do crédito de consumo, o impacto das apostas digitais e o papel do microcrédito orientado na geração de renda

O avanço do superendividamento das famílias brasileiras e a expansão desenfreada do crédito voltado ao consumo foram o centro dos debates do 2º Encontro Nacional SEBRAE e ABCRED, realizado em São Paulo. Durante o evento, que reuniu representantes de instituições de microfinanças, economistas e lideranças do setor, especialistas alertaram para a perda de qualidade do endividamento da população, impulsionada por modalidades digitais de alto custo, e defenderam o fortalecimento do microcrédito produtivo como ferramenta de inclusão e sustentabilidade financeira.

Em palestra no encontro, o economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Lauro Gonzalez, apresentou dados que detalham os impactos do atual ecossistema de crédito no país. Segundo o pesquisador, o Brasil experimentou uma forte aceleração do crédito de consumo, sobretudo a partir de 2020, porém concentrada em linhas caras e de fácil acesso digital. “O Brasil ampliou o acesso ao crédito, mas isso não significa necessariamente melhora na qualidade do crédito ofertado. Hoje temos uma expansão importante das modalidades de consumo, muitas vezes caras, que acabam agravando o comprometimento da renda das famílias”, ponderou Gonzalez.

Efeitos temporários e o peso invisível das apostas

Para o professor da FGV, embora os programas governamentais e privados de repactuação de dívidas desempenhem um papel importante de alívio emergencial, eles mitigam apenas os sintomas imediatos da crise. “Programas de renegociação aliviam a pressão no curto prazo, mas o desconforto financeiro volta a crescer se não houver mudança estrutural na forma como o crédito é ofertado. Precisamos ampliar o acesso ao crédito de qualidade, especialmente o microcrédito produtivo orientado”, complementou.

A complexidade do cenário atual também foi analisada pelo consultor da ABCRED, João Krein. Em sua avaliação, o superendividamento contemporâneo responde a variáveis que extrapolam as matrizes econômicas tradicionais, misturando fatores como informalidade laboral, pressões socioculturais de consumo, crédito facilitado e a forte penetração das plataformas de apostas digitais.

De acordo com Krein, os relatórios macroeconômicos padrão não dão conta de traduzir a atual vulnerabilidade das famílias. “O crescimento do PIB, a queda do desemprego ou mesmo o aumento da renda média já não conseguem explicar sozinhos o ambiente social do país. O superendividamento hoje também está relacionado à insegurança financeira, à desesperança e à fragilidade das relações econômicas”, apontou.

Microcrédito orientado como vetor de governança econômica

Diante do diagnóstico de fragilidade financeira, a solução proposta pelo setor não passa pela retração da oferta de recursos, mas sim pela qualificação do crédito. A presidente da ABCRED, Isabel Baggio, destacou que a assimetria do mercado nacional reside na tipificação das linhas de financiamento disponíveis para a base da pirâmide econômica.

“O Brasil não sofre apenas com falta de crédito. Sofre também com excesso de crédito ruim, caro e pouco conectado à geração de renda. O microcrédito produtivo orientado nasce justamente como alternativa a esse modelo”, sustentou Isabel. A executiva enfatizou que a metodologia do microcrédito apoia-se no acompanhamento técnico e operacionalizado diretamente junto a microempreendedores e trabalhadores informais. “Quando o crédito vem acompanhado de orientação e tem foco produtivo, ele deixa de ser apenas uma dívida e passa a ser instrumento de desenvolvimento, inclusão produtiva e fortalecimento das economias locais.”

Indicadores consolidados pela ABCRED dão dimensão ao volume desse mercado: no ano de 2025, as instituições associadas movimentaram mais de R$ 1,9 bilhão em operações de microcrédito estruturado, totalizando mais de 188 mil contratos vigentes em território nacional. Os dados chancelam a eficácia do crédito assistido, cujo monitoramento reduz sensivelmente a inadimplência e eleva a eficiência do capital investido. “Quando o crédito é ofertado sem orientação, a tendência é de maior vulnerabilidade financeira e aumento do risco de inadimplência”, concluiu a presidente da entidade.

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