Nos últimos dias, avançou no Congresso a proposta que prevê o fim da escala 6×1 no Brasil. A ideia, à primeira vista, é sedutora: trabalhar menos, descansar mais e melhorar a qualidade de vida do trabalhador. E, sejamos honestos, esse objetivo é legítimo. Ninguém em sã consciência é contra melhores condições de trabalho.

O problema, no entanto, não está na intenção, mas na forma como essa discussão vem sendo conduzida. O debate ignora um ponto central, talvez o mais relevante de todos: quem paga essa conta?

A proposta em análise prevê a redução da jornada semanal sem redução salarial. Na prática, isso significa aumento direto do custo do trabalho. E esse aumento não ocorre em um ambiente neutro, mas dentro de um país que já figura entre os mais caros do mundo para se contratar formalmente.

No Brasil, um funcionário pode custar entre 70% e 100% a mais do que o salário que recebe. Esse dado, por si só, já revela um desequilíbrio relevante. No entanto, quando se observa o custo real de manutenção de um posto de trabalho, o cenário se amplia. Encargos como INSS e FGTS, provisões obrigatórias como 13º salário e férias, benefícios como vale-transporte, alimentação e plano de saúde, além da estrutura necessária para viabilizar o trabalho, como espaço físico, tecnologia, gestão e os riscos inerentes à legislação trabalhista, elevam significativamente esse valor.

Nesse contexto, não é incomum que um colaborador com salário de R$ 3.000 represente um custo que se aproxima de R$ 6.000 para a empresa. Trata-se de uma diferença expressiva, que evidencia uma distorção pouco enfrentada no debate público: a distância entre o que o trabalhador efetivamente recebe e o que o empregador desembolsa para manter aquele posto de trabalho.

Diante disso, a discussão sobre a redução da jornada não pode ser tratada de forma isolada. Quando o custo de empregar aumenta sem qualquer mecanismo de compensação, os efeitos não são teóricos. Empresas reduzem contratações, substituem mão de obra por automação, terceirizam atividades ou enxugam suas estruturas. E, nesse movimento, quem mais sofre não é o topo da organização, mas justamente o trabalhador que se pretendia beneficiar.

Mas o impacto não para dentro das empresas. Ele se espalha pela economia. Quando o custo de operação sobe, esse aumento tende a ser repassado, ao menos em parte, para o preço final de produtos e serviços. Ou seja, a conta não desaparece. Ela é redistribuída. E, no fim, chega ao consumidor. Ou seja nós mesmos.

Há ainda um fator estrutural que precisa ser considerado. Diferentes setores operam sob lógicas distintas. Comércio, serviços, saúde, logística e indústria possuem dinâmicas próprias, muitas vezes dependentes de operação contínua. A escala 6×1, portanto, não é fruto de escolha arbitrária, mas de necessidade operacional. Alterá-la sem discutir produtividade, modelo de negócio e viabilidade econômica representa menos uma evolução e mais uma imposição.

Se o Brasil deseja, de fato, avançar na qualidade das relações de trabalho, é fundamental que o debate seja mais amplo e equilibrado. Não é possível discutir redução de jornada sem enfrentar, simultaneamente, a elevada carga tributária sobre o emprego. Tampouco é razoável exigir melhores condições sem repensar o custo estrutural de manter um trabalhador formalizado.

Tratar o empregador como um agente com capacidade ilimitada de absorver custos é um equívoco. Toda pressão econômica tem limite. E, quando esse limite é ultrapassado, o sistema reage. O resultado tende a ser a redução de vagas formais, o aumento da informalidade e a desaceleração do crescimento.

Talvez a pergunta mais relevante neste momento não seja como trabalhar menos, mas como construir um modelo em que isso seja economicamente sustentável. Porque, da forma como a proposta vem sendo conduzida, há um risco concreto de que uma boa intenção produza efeitos contrários aos desejados.

E, no fim, como tantas vezes ocorre no Brasil, quem mais precisa de proteção pode acabar sendo justamente quem pagará a conta.

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